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CF 2015 : FRATERNIDADE: IGREJAS E SOCIEDADE – EU VIM PARA SERVIR - CAMAÇARI

                “A adesão aos valores do cristianismo é um elemento útil e mesmo indispensável para a construção de uma boa sociedade e de um verdadeiro desenvolvimento humano integral” (CV 4)

“Ao publicar a encíclica Populorum Progressio em 1967, o meu venerado predecessor Paulo VI iluminou o grande tema do desenvolvimento dos povos com o esplendor da verdade e com a luz suave da caridade de Cristo. Afirmou que o anúncio de Cristo é o primeiro e principlal fator de desenvolvimento e deixou a reconendação de caminhar pela estrada do desenvolvimento com todo o nosso coração e com toda a nossa inteligência”. (CV 8).

Nós que seguimos a Jesus Cristo e buscamos luz da inteligência e sabedoria de vida no seu Evangelho e pertencemos à Igreja Católica como o lugar onde encontramos nos nossos dias a Sua presença divina, nós vivemos uma experiência de amizade fraterna, de caridade que acolhe, de solidariedade atenta às necessidades de outras pessoas. Esta dinâmica que vence o individualismo e cria solidariedade tem um valor para toda a sociedade.

ESTA É A CONTRIBUIÇÃO QUE A IGREJA DÁ À SOCIEDADE

Quando comunidades cristãs foram difundindo-se no Oriente Médio e em todo o território do império romano pela ação missionária dos apóstolos, elas difundiram uma compreensão do ser humano, da Família, do trabalho, da paternidade e da maternidade, da festa e também da doença e da morte mais profunda e mais persuasiva que o paganismo. Alguns filósofos pagãos tinham conseguido descobrir o significado de muitas coisas, mas ainda era imperfeito e limitado a poucos estudiosos. Pela primeira vez, uma compreensão da realidade cheia de razões estava ao alcance do povo simples que participava das comunidades.

NÃO UMA NOVA FILOSOFIA, MAS UMA NOVA VIDA.

Não se tratava de uma filosofia, de um conhecimento intelectual e sim de uma sabedoria de vida, porque o próprio Jesus Ressuscitado é a Sabedoria e se torna presente na comunidade. “Eles se mostravam assíduos ao ensinamento dos apóstolos, à comunhão fraterna, à fração do pão e às orações. (...) Todos os fieis, unidos, tinham tudo em comum” (At 2, 42-44). E no capítulo 4, reforça: “A multidão dos fieis era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava seu o que possuía, mas tudo era comum entre eles. (...) Não havia entre eles indigentes, porquanto os que possuíam terras ou casas, vendiam-nas, traziam o dinheiro e o colocavam aos pés dos apóstolos; e distribuía-se a cada um segundo a sua necessidade” (At 4, 32-35).

A vida humana, reconhecida como dom de Deus, passou a ser valorizada como nunca, mesmo a vida dos portadores de deficiências graves. Nesses ambientes surgiram os orfanatos, os leprosários, os hospitais, as escolas. Até mesmo as universidades surgiram à sombra das catedrais, quase 1.200 anos atrás. Claro que continuavam discórdias e divisões, mas havia Algo que permitia ir além, superar.

Esta dinâmica da Igreja era presente nos tempos antigos, mas continua até os dias de hoje: as obras das bem-aventuradas irmã Dulce dos Pobres, Madre Tereza de Calcutá, as casas para acolher adolescentes em risco, creches nos bairros pobres, sítios de terapia para dependentes químicos e outras, constituem respostas  da Igreja a situações de abandono e pobreza.

Esta experiência de amizade e vida fraterna em Cristo repercute em nós ajudando-nos a ter um olhar positivo sobre a nossa realidade e sobre o futuro e paciência com as circunstâncias duras que encontramos e criatividade para enfrentar os desafios com os quais nos deparamos. Experimentamos a beleza, a alegria e a paz que somente Jesus pode nos dar, no meio das dificuldades do dia a dia. Trata-se de uma novidade humana que muda a nossa maneira de conviver, por isso tem um valor social e pode ser comunicada a todos, inclusive no âmbito político. A novidade da qual somos portadores não é um novo discurso, uma nova teoria, mas uma humanidade renovada pela presença de Jesus Cristo, pela sua graça.

A experiência de uma humanidade que começa a mudar, tornando-se cem vezes mais capaz de compreender e de amar as pessoas e seus dramas é o caminho do crescimento da fé no novo milênio, é também o caminho para um empenho significativo na sociedade para que se torne mais justa e fraterna.

IGREJA E SOCIEDADE

Alguns governos e grupos de poder valorizam a presença da Igreja porque compreendem o grande valor da contribuição que ela dá para criar uma sociedade mais justa e fraterna. Outros tendem a marginalizá-la, por medo de perder prestígio ou por ter um projeto de sociedade distante dos valores do Evangelho. Durante os primeiros três séculos da era cristã, a Igreja era perseguida e muitos foram os mártires. Atualmente, o Estado Islâmico matou muitos cristãos no norte do Iraque, no Egito e na Síria e a muitos expulsou de seus territórios. Em alguns países africanos existem grupos radicais que operam de maneira semelhante. Em outros lugares, é evitada a brutalidade, mas a marginalização da Igreja acontece igualmente.

                Uma sociedade democrática compõe-se não de um aglomerado de indivíduos, de massas humanas indiferenciadas, mas de grupos sociais portadores de identidade própria, de história e experiências partilhadas, de ideais e de valores comuns, tendo enfrentado ao longo do tempo lutas, problemas e esperanças comuns. Esses grupos reconhecem-se portadores de uma comunhão de humanidade e de uma comunhão de destino. A comunidade cristã é uma destas realidades.

Os indivíduos deixados sozinhos diante do poder do Estado são facilmente conduzidos a servir os interesses do poder, tendo diminuída, de fato, a sua liberdade e a capacidade de participar da construção da convivência social segundo o seu ideal. Uma democracia será tanto mais efetiva (e não apenas formal) quanto mais for constituída por grupos com uma forte identidade.

“EU VIM PARA SERVIR”: COMUNHÃO X PODER

Jesus não se apresentou como quem quer mostrar poder, mas como servidor. “Vinde a mim todos vós que estais cansados sob o peso do vosso fardo e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e sede discípulos meus, porque eu sou manso e humilde de coração” (Mt 11, 28-29).

As pessoas, antigamente e também nos dias atuais, supervalorizam o poder e tudo interpretam a partir do poder e em função do poder. Os sumos sacerdotes perguntam a Jesus: “Com que autoridade fazes essas coisas? Quem te deu essa autoridade?” (Mt 21, 23)

Jesus usou sua autoridade, seu poder divino para servir, para perdoar e para curar, jamais para ofender ou humilhar ou para se promover. Jesus entendia e vivia o poder na perspectiva do amor que se doa e busca partilhar a vida, busca estabelecer relações de comunhão.

 Aos discípulos, também tomados pela lógica do poder e que lhe perguntavam quem dentre eles seria o maior, Ele respondeu: “Sabeis que os que são considerados chefes das nações as dominam, e os grandes fazem sentir seu poder. Entre vós não deve ser assim. Quem quiser ser o maior entre vós, seja aquele que vos serve, e quem quiser ser o primeiro entre vós, seja o escravo de todos. Pois mo Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por muito” (Mc 10, 42-45).

Isto fica mais claro ainda na última ceia, no gesto do lava-pés. Pedro não queria que Jesus lhe lavasse os pés. Jesus disse a ele: “Se eu não te lavar, não terás parte comigo” (Jo 13, 8). O ato de lavar os pés significava manifestar de maneira simbólica a vontade de partilhar a vida, doar sua vida divina a nós e tomar para si a nossa realidade humana.

Jesus não é um ingênuo que ignora seu poder divino. Depois de lavar os pés, ele diz: “Compreendeis o que vos fiz? Vós me chamais de Mestre e de Senhor e dizeis bem, pois eu o sou. Se, portanto, eu o Mestre e o Senhor, vos lavei os pés, também deveis lavar-vos os pés uns aos outros. “Dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, também vós o façais.”  (Jo 13, 10-15)

Quando um discípulo com a espada decepou a orelha de um servo do Sumo Sacerdote, Jesus disse: “Guarda tua espada. (...). Ou pensas tu que eu não poderia apelar para meu Pai, para que ele pusesse à minha disposição, agora mesmo, mais de doze legiões de anjos?” (Mt 26, 53).

Quando Jesus é desafiado para transformar as pedras em pão ou a descer da cruz, Ele recusa dar mostra espetacular do seu poder, porque quer entrar no nosso coração não pelo poder, mas pelo amor. A comunhão é o contrário lógico do poder.

Esta atitude de Jesus é uma lógica que quando é assimilada pelas comunidades, origina um modo de conviver totalmente diferente.

A IGREJA: COMUNIDADE DOS SEGUIDORES DE JESUS A SERVIÇO DA SOCIEDADE

“As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo” (GS 1).

  • Desta lógica que valoriza a comunhão e o serviço, nascem as obras de caridade.
  • A família é o primeiro lugar no qual esta mentalidade nova é aprendida e experimentada, primeira escola de virtudes sociais.
  • A Doutrina social da Igreja busca, nesta linha, o bem comum, defende a dignidade humana e os direitos fundamentais.
  • Por isso, a Igreja valoriza e promove uma ação política a serviço do bem comum e da justiça social.

                A Igreja pode contribuir significativamente para tornar mais humana e digna a convivência social quando documenta um novo modo de viver e de conviver, centrado não no poder mas no serviço. A expansão da comunhão promove a paz.

Camaçari, 20 de fevereiro de 2015

+  Dom João Carlos Petrini

 
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