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Relembre a mensagem de Dom João Carlos Petrini em sua recepção na Cidade do Saber em Camaçari

Fico muito grato e feliz pelo convite a este momento de encontro fraterno com a cidade de Camaçari que me acolhe com carinho, com os gestores e as autoridades das diversas esferas, com as pessoas que têm maiores responsabilidades para administrar os diversos aspectos da vida em sociedade.

   Agradeço as bondosas palavras de acolhimento do senhor Prefeito Luis Caetano e os votos de um feliz trabalho pastoral na Nova Diocese ....    

 Fico comovido diante de tantas manifestações de afeto e de boas vindas. Chego a Camaçari de coração aberto, com total disponibilidade para colaborar com o grande trabalho que aqui já é desenvolvido para o bem do povo, quer pelas lideranças da Igreja como também pelas lideranças da sociedade.   Quero aproveitar este momento para uma breve apresentação.   Nasci na Itália no ano em que terminou a II Guerra Mundial, sou filho da Paz. A Itália estava destruída pelos bombardeios e pela ausência dos homens que tinham ficado na guerra. A situação era de grande pobreza. Mas, durante os anos da minha infância e da minha adolescência presenciei, inclusive em meu pai e em outros membros da minha família, um impressionante dinamismo de reconstrução, um verdadeiro fervor para reconstruir as casas, as escolas, os hospitais, as estruturas da vida urbana. Em poucos anos minha terra tornou-se um dos países mais ricos do mundo. O tecido católico ainda sólido proporcionava um clima de colaboração fraterna nas diversas necessidades.   Este ambiente penetrou na minha alma e carrego até hoje algo daquele espírito empreendedor animado de esperança que não mede sacrifícios para construir não somente o bem particular, mas acima de tudo, o bem comum.   Fiz meus estudos clássicos (muito latim e muito grego) e me formeiem Ciências Políticasna cidade de Perugia, imaginando que o poder era o valor mais importante para realizar coisas boas. Durante a adolescência, estava afastando-me da Igreja que me parecia sem utilidade na perspectiva de vida que vinha cultivando.   Por graça de Deus encontrei um grupo de jovens do movimento Comunhão e Libertação com os quais pude reencontrar a mesma fé dos meus avôs e dos meus pais, mas vivida com um entusiasmo, uma vibração como nunca tinha visto. Descobri um cristianismo que tinha a ver com toda a minha vida, com minhas esperanças e minhas angústias, com os conflitos e os desafios. Abriu-se para mim um horizonte de luz e de empenho que não poderia imaginar antes.   Descobri que a coisa mais importante na vida não era o poder, mas Jesus Cristo, porque com Ele tudo adquire um significado mais profundo, uma beleza que sacia o coração, uma verdadeira utilidade social. Isto me levou a reformular meu projeto de vida.   Pensei de passar dois anos no Brasil a serviço dos pobres e cheguei a São Paulo em 1970, acompanhando três sacerdotes missionários. Uma vez mergulhado na periferia de São Paulo, não era mais possível voltar para fazer carreira política ou diplomática, me parecia uma traição. Desde aquele tempo até hoje sempre mantive um vínculo com a realidade da periferia, mesmo quando a atividade principal me levava em outros ambientes, procurando fazer a ponte entre a Universidade e as classes populares.   Estudei Teologia em São Pauloe tornei-me sacerdote, já com 30 anos, com grande sofrimento dos meus pais que sonhavam outros planos.   A fim de colaborar na reconstrução de uma presença cristã na Universidade que tinha desaparecido em conseqüência da crise da JUC, fiz o Mestrado e o Doutoradoem Ciências Sociaisna PUC-SP com grandes professores.   Em1989, aconvite de Dom Lucas Moreira Neves, vim para Salvador. Fui Reitor do Seminário Propedêutico até 1997 e de 1998 até hoje sou Diretor do Instituto da Família. Trata-se da seção brasileira do Pontifício Instituto João Paulo II para Estudos sobre Matrimônio e Família, fundado em Roma pelo Papa João Paulo II e presente nos cinco continentes.   Em Salvador comecei a freqüentar a região suburbana e, particularmente Novos Alagados onde, graças a uma ONG e à participação de diversos sujeitos, públicos e privados, o bairro foi urbanizado, as casas reconstruídas e deu-se vida a diversas obras educativas (uma creche, um centro educativo para reforço escolar, um Centro de Orientação à Família, uma Escola Profissionalizante entre outras atividades). Recentemente foi construída uma Igreja onde atuam dois sacerdotes, para que fosse reconstituído não somente o bairro em suas estruturas urbanas (ruas, esgoto, muros de contenção, etc.) mas o próprio povo na sua unidade e identidade.   Do Instituto da Família nasceu o Programa de Pós-graduação em Família na Sociedade Contemporânea da UCSal, com Mestrado e Doutorado, onde sou professor de Sociologia da Família e Coordenador.   Fui nomeado bispo auxiliar de Salvador em 2005 e em 2007 fui convidado pelo Santo Padre Bento XVI a participar da V Conferência do Episcopado Latino Americano e do Caribe em Aparecida como perito. Durante alguns anos fui também diretor do Instituto de Teologia.       
   Faço parte da Comissão Nacional Episcopal para a Vida e a Família, da CNBB.   Deste interesse pela família, que quer dizer pesquisas, publicações de livros e artigos científicos, nasceram entre outras coisas, as Escolas de Família, hoje mais de 40. Trata-se de encontros quinzenais para que os casais que participam possam adquirir uma compreensão da realidade da família mais adequada aos nossos tempos: em que sentido a família constitui um recurso para as pessoas e para a sociedade, quais os conflitos que a atravessam e porquê, qual é o valor do sacramento do matrimônio e da presença redentora de Cristo, como enfrentar os desafios da educação dos filhos, como conseguir políticas públicas adequadas.   Hoje sou cidadão brasileiro e sou enviado pelo Papa Bento XVI para ser o primeiro bispo desta Nova Diocese de Camaçari. O lema do meu episcopado é: Habitavit in nobis, que é parte do versículo do evangelho de São João que fala: “O Verbo de Deus se fez carne e habitou entre nós”( Jo 1,14), e plantou sua tenda no nosso meio. Isto quer dizer que meu episcopado tem como tarefa principal testemunhar a alegria, a beleza e a paz que esta presença de Jesus Cristo traz em nós quando o reconhecemos e o acolhemos.   Camaçari é o pólo economicamente mais dinâmico da Bahia, aonde as pessoas chegam de diversos lugares para trabalhar e todos têm uma grande vontade de crescer, de aprender uma profissão, de melhorar a qualidade de vida da sua família. De um lado o pólo industrial e petroquímico, de outro, a região litorânea de grande fluxo turístico fazem de Camaçari uma cidade com grandes expectativas de crescimento. Os empresários, os gestores públicos, os trabalhadores convergem num interesse comum, ainda que com algumas diferenças: fazer desta cidade um lugar de desenvolvimento econômico e social, onde os empreendimentos sejam rentáveis e os trabalhadores encontrem trabalho digno e bem remunerado. Muitas aspirações são compartilhadas: todas as famílias desejam ver seus filhos crescerem, dedicados a um projeto de vida positivo no qual ao crescimento pessoal se acompanhe a possibilidade de constituir a própria família, trabalhar, gerar filhos e educá-los.   Todos aspiram à paz, especialmente nas famílias e nos bairros, paz ameaçada hoje pela difusão das drogas e pela violência gerada pela ânsia de conseguir a qualquer preço recursos e bens de consumo. Todos aspiram a uma convivência social mais pacífica.   A Igreja Católica quer participar deste dinamismo positivo de crescimento e colaborar com as forças vivas da sociedade para que o desenvolvimento alcance o ser humano em todas as dimensões da sua existência. Participará com a sua identidade, com a riqueza de que é portadora. Afirma o Papa Bento XVI na Encíclica Caritas in Veritate “A Igreja não tem soluções técnicas para oferecer e não pretende de modo algum imiscuir-se na política dos Estados, mas tem uma missão a serviço da verdade para cumprir, a favor de uma sociedade à medida do homem, da sua dignidade e da sua vocação” (CV 9).   De fato, a tecnologia coloca em nossas mãos objetos que nos deixam admirados e que trazem benefícios, mas fica sempre mais evidente que não bastam para saciar a fome e a sede de felicidade, de realização, de amar e ser amado que cada pessoa traz em seu coração. O Papa afirma: “A sociedade cada vez mais globalizada torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos. A razão (ciência e tecnologia), por si só (...) não consegue fundar a fraternidade” (CV 19). E na mesma Encíclica ainda diz: “A adesão aos valores do cristianismo é um elemento útil e mesmo indispensável para a construção de uma boa sociedade e de um verdadeiro desenvolvimento humano integral” (CV 4). A morte e a ressurreição de Jesus Cristo é a força propulsora principal para o verdadeiro desenvolvimento de cada pessoa e da humanidade inteira (Cf. CV 1).   Nessa perspectiva, a ação evangelizadora da Igreja e as diversas atividades pastorais fortalecem os vínculos familiares, difundem no território grupos de vida fraterna, procuram orientar jovens para caminhos positivos de construção. A presença da Igreja contribui, dessa maneira, para difundir um clima de respeito e de paz na convivência social, de solidariedade e de cooperação.   A sociedade moderna, que nos oferece artefatos tecnológicos tão admiráveis, renunciou a pensar os significados mais profundos de todas as coisas. Um grande sociólogo alemão, Max Weber que viveu entre o final do século XIX e o início do XX, dizia: “A medicina pode prolongar de maneira considerável a vida de um homem, mas não é capaz (não tem competência) para dizer-lhe porque vale a pena viver”. Por outro lado, um grande filósofo e pedagogo americano, John Dewey, dizia que chegou o momento de abandonar a busca dos valores absolutos para dedicar-se a resolver problemas práticos e técnicos.   O abandono do interesse pelo significado da existência, pela busca do fundamento das coisas, conduziu a uma visão banal da realidade. A cultura atual é fortemente marcada pela banalidade, isto é, pela redução dos significados.   Alguns pensam que a finalidade da vida é ganhar dinheiro e curtir prazeres. Mas esta postura humana não dá conta de aspectos relevantes da existência, não sabe lidar com a responsabilidade e com a necessidade de disciplina no estudo, por exemplo, ignora o bem comum e a solidariedade, não sabe o que fazer diante de um fracasso, ou diante da doença e da morte. As pessoas, especialmente os jovens, necessitam de respostas às exigências do coração que de maneira irresistível busca a plenitude da realização.   Uma consideração banal da vida e da morte, da sexualidade, da paternidade e da maternidade abre as portas para os elevadíssimos graus de violência que atualmente marcam a Bahia e o Brasil   A presença da Igreja pode contribuir e muito para enfrentar estes desafios que não são somente da Igreja, mas cabem a todos os que buscam o bem e a paz para a sociedade. Por isso, tenho certeza de que poderemos percorrer juntos muitos caminhos, colaborar em muitas atividades, na busca de objetivos comuns.   A Igreja formulou ao longo do tempo crité­rios para orientar a realidade social, econômica, financei­ra e política. Esta é a tarefa específica do Ensinamento So­cial da Igreja.. Entre os princípios mais importantes recordamos:   

- A centralidade da pessoa. Ela não é um apéndice da sociedade e sua dignidade não é atribuída por algum poder governamental, antes é originária, pois depende do fato de ser imagem e semelhança de Deus, relação constitutiva com o Mistério Criador. Cada pessoa, portanto, é titular de uma dignidade inviolável, independentemente da idade, religião, sexo, condições de saúde físicas e psíquicas e, por isso, lhe é devi­do um respeito sem excessões, desde a concep­ção até o término natural de sua vida terrena.   - A promoção do bem da família, como primeiro lugar no qual a pessoa se realiza e encontra o ter­reno adequado para o seu pleno de­senvolvimento. A família expressa a maior cooperação entre os sexos e entre as gerações. Isto é de interesse  de toda a sociedade, pois difunde no seu interior e ao seu redor um clima de cuidados e de solidariedade. Pode-se trabalhar para fortalecer os vínculos familiares e prevenir as separações. A Igreja acolhe também os casais em segunda união, (ainda que com algumas limitaçõies) para que a ninguém falte a misericórdia de Deus. 

 - O princípio de soli­dariedade. A Igreja entende que a atenção de toda a sociedade deve estar voltada para oferecer opor­tunidades de trabalho e fon­tes de subsistência a pessoas e grupos menos favorecidos, priorizando os mais pobres.

- O princípio de subsidiaridade, sugere que  um organismo maior (por exemplo o Estado) não  se substitua ao que um organismo menor naquilo que este é capaz fazer (valorizando a inciativa de famílias organizadas  e agregações sociais interme­diárias). 

- O princípio da liberdade religiosa é síntese de todas as liberdades, pois garante a cada pessoa a liberdade diante daquilo que considera fonte de significado da vida, liberdade de seguir o caminho que considera mais conveniente para alcançar o seu destino. O padroeiro da Nova Diocese é São Tomás de Cantuária que, no século XII, derramou seu sangue para defender a liberdade da Igreja diante das prevaricações do Rei.   Permitam-me dizer mais uma palavra a esse respeito. A Igreja valoriza muito a separação entre o Estado e a Igreja, sancionada desde a constituição da República e reafirmada na Constituição de ‘88. O Estado laico é uma conquista que interessa a todos. Esta separação não significa rompimento ou hostilidade, pelo contrário, indica o mútuo respeito e liberdade de agir nos âmbitos específicos de cada um, de modo que se dê a Cesar o que é de Cesar e a Deus o que é de Deus (MT 21, 22). Por outro lado, laico não significa ateu, especialmente no país onde o povo na sua grande maioria é extremamente religioso. Seria antipopular e mostraria ranços de autoritarismo a Autoridade de Governo que quisesse impor uma sua ideologia (como aconteceu com Estados ateístas ou racistas no século passado).   É esclarecedora a intervenção que o presidente da França, Nicolas Sarkozy, fez em Roma, no dia 4 de janeiro de 2008. Disse ele:   “Eu acho que uma nação que ignore a herança ética, espiritual e religiosa de sua história comete um crime contra a sua cultura (...) que impregna tão profundamente nossa maneira de viver e pensar. Arrancar a raiz é perder o significado, é enfraquecer o cimento da identidade nacional, é tornar ainda mais ásperas as relações sociais, que tantas necessidades têm de símbolos de sua memória”. E mais adiante Sarkozy continua:   “Desejo o advento de uma laicidade positiva, ou seja, uma laicidade que, preservando a liberdade de pensamento, a de crer ou não crer, não veja as religiões como um perigo, mas, pelo contrário, como um trunfo. (...). Trata-se de procurar o diálogo com as grandes religiões e ter por princípio facilitar a vida quotidiana das grandes correntes espirituais, ao invés de procurar dificultá-las”.   Quis recordar estes princípios por pura necessidade de cumprir com o dever do ofício, mas tenho total certeza de que estas questões nos encontram de acordo, podendo contar com a colaboração recíproca em clima de respeito. O diálogo ecumênico e inter-religioso deverá manter abertos canais de entendimento e cooperação também com as igrejas cristãs e com outras igrejas e grupos religiosos, inclusive os de matriz africana.   A constituição de uma Nova Diocese oferece novas possibilidades de encontrar com Jesus Cristo e fortalecer o pertencimento à Igreja. Fortalecer as comunidades católicas, tornar mais conhecido o evangelho, difundir lugares de vida fraterna, incentivar a solidariedade o cuidado com os mais pobres têm efeitos positivos que interessam a toda a sociedade.   Espero que mais adolescentes e jovens possam descobrir a alegria de crescer na capacidade de amar, de estudar, de trabalhar.   As famílias poderão encontrar na Sagrada Família seu ponto de referência e os caminhos da paz, da reconciliação, a renovada alegria de partilhar as tarefas cotidianas, aprendendo a renovar a cada dia o afeto e a dedicação recíproca.   Os trabalhadores poderão encontrarem Jesus Cristooperário um modelo e assim dedicar-se à sua atividade compreendendo todo o valor de seu esforço, com a certeza de prestar serviços relevantes para o conjunto da sociedade.   Os empresários terão a possibilidade de alargar o horizonte para o desenvolvimento de toda a sociedade, contribuindo para o bem estar, para o bem comum e a paz social.   As autoridades, inspirando-seem São Tomásde Cantuária, patrono da Nova Diocese, poderão encontrar mais luzes para a difícil arte de administrar o poder.   Queria terminar dizendo que um bispo sozinho pode expressar belas idéias, mas não consegue fazer nada. Ele necessita da colaboração dos padres e dos agentes de pastoral, mas também do apóio das lideranças da sociedade civil. Por isto, fico muito grato por este encontro. Espero que este dia marque o início de relacionamentos de colaboração, de diálogo franco e aberto.   Desde os tempos mais antigos, a Igreja reza pelas autoridades, para que Deus as assista e oriente com as luzes do Espírito Santo e lhes conceda fortaleza, paciência e consolação. Desde já podem contar com minha oração quotidiana. São Tomás de Cantuária os proteja e Nossa Senhora das Candeias os conduza para os caminhos da felicidade e da paz.

RECEPÇÃO de Dom João Carlos Petrini pela cidade de Camaçari como primeiro Bispo da Nova Diocese. Camaçari – 15/02/11. Cidade do Saber. 

 
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