Caríssimos irmãos e irmãs,
O Concílio Vaticano II está completando 50 anos de sua convocação e continua extremamente atual. Um dos seus documentos mais importantes, a “Gaudium et Spes” afirma: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens (e das mulheres) de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo”. (GS 1) Tenho certeza que os discípulos do Senhor que vivem no território da Nova Diocese compartilham e sempre mais querem compartilhar as esperanças e as alegrias, as tristezas e as angustias do nosso tempo, do povo que Deus nos confia.
Tenho uma grande admiração pelas pessoas de Camaçari e dos Municípios da nova diocese, porque sei que são pessoas que no meio de suas labutas diárias, na empresa, na escola, em família, buscam forças e luzes em Jesus Cristo, alimentando-se da Eucaristia, zelando pelo bem Igreja a fim de construir a paz.
Sei também quanto é dura a vida para cada um, quanto é exigente o crescimento para os jovens, quanto é difícil manter unida a família, quanto é desafiadora a realidade atual.
Sei que alguns irmãos nossos ficam desanimados com a batalha de cada dia e perdem a esperança. Alguns cedem à tentação de percorrer caminhos de destruição: da saúde, da paz em família, da vida de outras pessoas.
Alguns irmãos se esquecem de Deus, da oração, da caridade fraterna, imaginando conseguir desse modo atalhos para o sucesso e a felicidade, que quase sempre se revelam armadilhas.
Jesus veio até nós, para nos libertar de tudo isso, para ser a luz a iluminar nossos caminhos, a fortaleza do nosso coração, a certeza da vitória sobre o mal e sobre a morte, a esperança da felicidade eterna no abraço do Pai.
I
O Criador, aquele que faz brilhar
o sol de dia e as estrelas de noite, compadecendo-se de tanta dor, de tanto
sofrimento, quis nos declarar seu amor.
Jesus quis nascer do ventre de uma mulher (Gal, 4,4) experimentar as alegrias dos afetos familiares, compartilhar conosco a dureza do trabalho na oficina com São José, quis viver a beleza da amizade, cercando-se de discípulos.
Mas, o que mais impressiona é que Ele quis compartilhar nossas dores: ele também experimentou o abandono dos amigos, a traição de um dos mais íntimos, a angústia de ser condenado injustamente, o sofrimento de torturas cruéis e até mesmo o drama da morte.
O Salmo (102) de meditação nos confirma: É verdade, somos amados por Deus: “Ele é bondoso e compassivo. Ele cura toda a tua enfermidade, ... Ele te cerca de carinho e compaixão.” E Jesus diz no Evangelho: “Até os cabelos de vossa cabeça estão todos contados” (Lc 12, 7). Ele nos ama até o menor detalhe de nossa vida. É Ele que disse também: “Ninguém tem amor maior do que aquele que dá a vida por seus amigos, vós sois meus amigos” (Jo 15, 14). Ele dá sua vida por nós, que somos seus amigos. É como se Ele dissesse a cada um de nós: Você me abandona, eu o acolho; Você me trai, eu o abraço;
Você me rejeita, eu o perdoo; Você me fere de morte com a lança, eu dou minha vida por você. Jesus desceu até as situações mais baixas nas quais um homem, uma mulher podem se encontrar (descendit ad ínfera, dizíamos antigamente no credo). Mas, venceu a morte, ressuscitou, e subiu aos céus para conduzir e levar para cima, para o alto quem fica unido a Ele, agarrado a Ele.
Trata-se “de um amor apaixonado e que, além do mais, perdoa os pecados” diz o Papa Bento na encíclica “Deus Caritas Est” (10). Ele não somente nos dá alguns conselhos, mas nos dá sua própria vida, doa a nós sua vida divina que vence a morte. Na última ceia disse: “Tomai e comei, isto é meu corpo que eu dou a vocês”. Ele se doa a nós, comovido com a nossa miséria, com os nossos pecados, comovido diante do nosso mal, se doa para nos dar outra possibilidade de vida.
Diante de um dom tão grande, nós ficamos admirados, maravilhados, comovidos. “Quem sou eu, Senhor, para de mim vos lembrardes com tanto carinho” (diz o Sl 8). E nós, o que devemos fazer para responder a esse amor? Viver tudo: o afeto, o trabalho, o estudo, a amizade, a política, a partir deste acontecimento de graça que nos envolve. Como Pedro depois da ressurreição, nós queremos reafirmar nesta tarde a Jesus: “Sim Senhor, Tu sabes tudo, Tu sabes que eu te amo”. (Jô 21, 17).
II
Jesus Cristo ressuscitado continua presente hoje. Ele está entre nós. Ele mesmo disse: “Eis que estou convosco todos os dias até o fim dos tempos” (MT 28, 20). Ainda o Papa Bento nos diz: “Incessantemente o Senhor vem ao nosso encontro, através de homens nos quais Ele se revela; através de sua Palavra, nos Sacramentos, especialmente na Eucaristia. (...) Sentimos a sua presença e aprendemos a reconhecê-la na nossa vida quotidiana” (DCE 17). Por isso, podemos dizer com toda confiança: “Tu Senhor, aqui. Contigo quero viver esta minha vida. Venha iluminar minha inteligência, dá-me sabedoria para compreender e enfrentar melhor os problemas”.
E o Santo Padre João Paulo II, na Encíclica sobre a Eucaristia, não somente repete que Jesus vive hoje, é contemporâneo nosso, mas afirma: “Quando a Igreja celebra a Eucaristia, memorial da morte e da ressurreição do Senhor, este acontecimento central de salvação torna-se realmente presente e realiza-se também a obra da nossa redenção” (Ecclesia de Eucharistia, 11).
E nós, batizados, quando reconhecemos Jesus Cristo presente e nos deixamos envolver por esta onda de ternura e compaixão, começamos a mudar, experimentamos a paz, uma alegria que nos acompanha mesmo no meio das tribulações. Tornamo-nos capazes de acolher outras pessoas com atenção e respeito, de perdoar ofensas, viver gestos de amor gratuito, estabelecer relacionamentos de amizade fraterna, em suma, começamos a viver todo o significado, toda a dedicação que é possível.
No entanto, muita gente vive pela metade: é possível ser estudante pela metade; professor pela metade, trabalhador, até mesmo ser pai pela metade, (....) Não vale a pena, perde-se o melhor da vida. O reconhecimento de Jesus Cristo presente, a amizade com Ele, nos dá a possibilidade de viver intensamente toda a beleza de cada circunstância, podendo abraçar com entusiasmo e com dignidade as tarefas, as responsabilidades, os problemas do nosso dia a dia.
Esta vida de comunhão com Cristo é alimentada pela oração pessoal e em família, pela Palavra de Deus, que a Exortação Apostólica de Bento XVI, Verbum Domini, valoriza de maneira tão profunda e, principalmente pela Eucaristia. Por isso, a Eucaristia é reafirmada pelo Magistério como centro da vida do sacerdote, eixo das comunidades eclesiais, pois ela torna presente quotidianamente o dom que Jesus faz de si à Igreja, amada como uma esposa que deste dom renasce.
Deus é amor que se doa. Isto quer dizer que nós, criados a imagem e semelhança de Deus, somos chamados a doar a nossa própria vida para o bem, para a felicidade de outros, encontrando nisto a nossa maior realização. As mães que se doam com sacrifício para o bem dos filhos sabem muito bem isto. O esposo e a esposa, que vivem reciprocamente o dom sincero de si, encontram o caminho da felicidade e da paz. Mas todos são chamados a fazer dom da própria vida.
Eu sei que isto é o contrário do que se costuma fazer. Parece que o objetivo não é doar-se aos outros, mas tirar proveito deles, conseguir vantagens, prevalecer sobre eles. Por isso, é necessária uma nova evangelização. Por isso, a insatisfação, a solidão, a depressão se espalham como epidemia, as famílias entram em crise e a violência cresce assustadoramente. No evangelho proclamado hoje, ouvimos Jesus convidar a rejeitar a mentalidade deste mundo, que não é marcada pelo amor gratuito e pela compaixão.
Diante dessa situação, o Documento de Aparecida, repetindo palavras de João Paulo II insiste: “A todos nos toca recomeçar a partir de Cristo”. Meus caríssimos irmãos e irmãs, a esta obra comum Deus nos chama, para que se renove a alegria nas famílias, a esperança nos corações, a paz na sociedade.
Evangelizar significa envolver outras pessoas no acontecimento de graça que nos alcançou e já é fonte de alegria para nós. Começamos a ser mais respeitosos dos outros, mais abertos à diferença, mais dedicados ao bem, mais alegres e bem dispostos com a vida. O testemunho dessa mudança constitui uma força de atração extraordinária.
III
Este é o grande desafio: evangelizar, levar mais a sério o fato de sermos discípulos-missionários do Senhor, poder dizer aos outros membros da família, aos colegas de escola ou de trabalho, aos vizinhos: venha ver como é bom, como é suave vivermos como irmãos na Igreja.
Para isso, quero construir com os sacerdotes, os religiosos e religiosas, com os diáconos e com os agentes de pastoral, um relacionamento de amizade, de diálogo, de colaboração, para que possamos caminhar juntos na tarefa comum de evangelizar. Com eles quero dar uma especial atenção às comunidades paroquiais que, como pude verificar, são lugares cheios de vida, de participação e de alegria. Mas elas podem ser fortalecidas e, logo que possível, serão criadas novas paróquias para oferecer ao povo católico um atendimento melhor.
Espero que com a colaboração dos padres seja possível arrumar o seminário e ver crescer as vocações ao sacerdócio nos próximos anos, pedindo a Deus que mande bons operários para a sua messe. A formação para o sacerdócio será o nosso empenho maior.
Os municípios que fazem parte da Nova Diocese têm muitos jovens e muitos trabalhadores. Espero que, com a colaboração de pessoas de boa vontade, possamos realizar uma Casa da Juventude e uma Casa do Trabalhador, para fortalecer o excelente trabalho que já aqui é desenvolvido através da Pastoral da Juventude e de outras pastorais. O objetivo é que a luz de Cristo e a sabedoria do Evangelho constituam um ponto firme de referência e de orientação para muitos jovens, hoje vulneráveis e em situação de risco.
Todos sabem que há muitos anos me dedico à família, quer na seção brasileira do Pontifício Instituto João Paulo II para Estudos sobre Matrimônio e Família, quer no Programa de Pos-Graduação em Família da Universidade Católica, quer com a constituição de mais de 40 Escolas de Família na Diocese de Salvador.
O futuro da humanidade passa pela família (João Paulo II). A família é o primeiro lugar para a transmissão da fé, o santuário da vida, o nascedouro de uma convivência social na paz. Por isso, a família será um dos temas prioritários, em busca do fortalecimento das relações familiares, da cooperação entre os cônjuges e entre pais e filhos.
A ação da Igreja chama-se Pastoral por causa de Jesus Bom Pastor que cuida com amor das ovelhas. As Pastorais são os braços e a boca de Jesus que chegam às pessoas nos dias de hoje, assim é Ele que abraça e evangeliza. Já existem mais de 30 Pastorais, desde a Pastoral da Criança, que é uma extraordinária presença em favor da vida, até a pastoral do idoso. Não quero repetir aqui cada uma. Fica firmado o compromisso de valorizar o que as comunidades já realizam e ajudar a crescer uma postura missionária.
Sou grato por tanto trabalho desenvolvido por um grupo de padres relativamente pequeno, verdadeiros heróis do evangelho e pela liderança leiga muito dedicada. Quero apoiá-los e ajudá-los em tudo o que é possível.
A tarefa do bispo é confirmar os irmãos na fé, reavivar a alegria e o entusiasmo de sermos discípulos do Senhor e enviados por Ele como missionários do Evangelho. Procuraremos o diálogo numa dimensão ecumênica de respeito fraterno com outras denominações cristãs que seguem o mesmo Jesus e pregam o mesmo Evangelho. É tradição da Igreja no mundo inteiro e especialmente na Bahia, cultivar o respeito mútuo no diálogo inter-religioso com religiões de matriz africana e com outras religiões que também adoram a Deus, buscam a paz e promovem o amor.
Sei que as administrações dos diversos municípios estão voltadas para o bem comum de toda a população e que o governo Estadual e o federal convergem para o crescimento econômico e social da região. A Igreja quer colaborar com este dinamismo. Já o Papa Paulo VI na Populorum Progressio afirmava que o anúncio de Cristo é o primeiro e principal fator de desenvolvimento. E Bento XVI, na Encíclica Caritas in Veritate, afirma: “Só através da caridade iluminada pela luz da razão e da fé, é possível alcançar objetivos de desenvolvimento dotado de um valor mais humano e humanizador” (CV 9).
O Ensinamento Social da Igreja oferece critérios que auxiliam a elaboração de políticas públicas no sentido de visar acima de tudo o bem de cada pessoa. Esta é o maior valor porque é imagem e semelhança de Deus, portanto, dotada de uma dignidade inviolável, desde a sua concepção até o último instante da sua vida.
Consideramos de extrema importância dar passos para chegar a oferecer o ensino religioso às crianças e adolescentes da rede pública, para que tenham pontos de referências que os ajudem a reconhecer o bem e rejeitar o mal, a percorrer caminhos de crescimento e de construção, como, aliás, recomenda o acordo firmado entre o Brasil e a Santa Sé.
Vivemos numa época de vertiginosas mudanças e de grandes desafios. Às vezes parece que tudo flutua e nada é firme. Vivendo cada dia sobre a rocha que é Cristo, confiando na maternidade da Virgem Maria que a todos nos ampara e protege, podemos avançar com segurança na construção de uma convivência de paz e de verdadeira fraternidade. Deus os abençoe, São Thomaz de Cantuária e Nossa Senhora das Candeias lhes obtenham de Deus as graças e as bênçãos de que necessitam.


