Por cerca de dois anos, o Pe. Marcos Filgueira residiu em Roma para cursar o Mestrado em Filosofia na Pontifícia Universidade Gregoriana. Durante esse período, teve a oportunidade de vivenciar de perto a vida da Igreja e de se encontrar com o Papa Francisco. A Diocese de Camaçari partilha essa experiência marcante, vivida por um de seus presbíteros, em memória do pontífice falecido no último dia 21 de abril.
Padre Marcos, o senhor teve a oportunidade de estudar em Roma e viver de perto a vida da Igreja junto ao Papa Francisco. Estar tão próximo da realidade do Vaticano certamente proporciona um olhar mais profundo sobre o Papa e sua missão. O que o senhor percebeu de mais forte no modo como Francisco vivia o dia a dia como sucessor de Pedro?
Nesses anos que eu passei em Roma, realmente tive a oportunidade de estar mais perto da realidade da igreja governada a partir do Vaticano, uma das experiências mais significativas que um sacerdote e, posso dizer, que um cristão católico pode fazer, é pisar no chão de Roma, terra de mártires, de santos, de papas.
E, nesses anos que eu passei, tive a oportunidade de me encontrar com Papa Francisco em algumas ocasiões e me lembro de duas delas, as principais, quando ele visitou a Universidade Gregoriana de Roma, onde eu estava fazendo o curso de Filosofia Medieval e Antiga, e nos proferiu com aquela gentileza de sempre e aquela sensibilidade que lhe era peculiar, palavras de alento, mas, principalmente, palavras que suscitavam a unidade e a compreensão de que, até mesmo, o serviço acadêmico deveria estar na direção da humildade e da simplicidade. Estar com Papa Francisco nessa ocasião foi muito gratificante, porque, para além do fato de ser um Papa da Igreja, estava com uma pessoa que me dava uma sensação de humanidade e de simplicidade extraordinárias. E isso, para homens da Igreja que ocupam cargos e posições, às vezes é muito raro.
E ele conseguia fazer com que compreendêssemos que o maior serviço que podemos prestar à humanidade, inclusive a partir do nosso sacerdócio, é fazer com que o mundo não se esqueça do valioso ensinamento de Cristo que suscita um interesse particular pelo ser humano. Antes de Jesus, isso não era possível ser pensado na cultura ocidental. O ser humano só era valioso se fosse o herói.
Se fosse valioso no sentido de conquistas, de poder, de riqueza, Jesus é quem coloca o assento do ser humano no lugar devido. E o Papa Francisco conseguia retomar essa compreensão com muita profundidade para os tempos de hoje.
Então, o que eu percebi de mais forte, do modo como Francisco vivia o dia a dia como sucessor de São Pedro, era essa capacidade de se colocar como Pedro antes de se colocar como Papa, se colocar como pessoa antes de se colocar como uma função. E isso eu tenho certeza que foi o que cativou o mundo a reconhecer na figura do Papa Francisco, uma figura que congregava inclusive pessoas que estavam distantes da igreja e convidava olhares que já tinham se perdido a se voltar para a fé cristã e reconheceu uma presença extraordinária nele.
Durante a vivência em Roma, quais momentos marcaram a memória do Senhor ao encontrar com o Papa Francisco ?
Então, foram muitos momentos, celebrações, nas quais nós, como padres do Colégio do Pio Brasileiro, participávamos na Basílica de São Pedro e em outras basílicas também, na abertura do Ano Santo, como em outras ocasiões, como a Páscoa do Ano Retrasado.
Em outra ocasião, quando o colégio fez aniversário de 90 anos e que estivemos também com ele, tive a oportunidade de conversar com ele por uns 15 minutos e senti a imensa presença de uma pessoa que descia dos seus tronos para estar no mesmo plano que nós estávamos e conversar como um irmão, apesar de ser pai.
Isso foi de uma grandeza imensa. Foi uma experiência da qual eu não me esqueço. E quando eu lhe segredei que estava ali representando uma pequena parcela de uma igreja grande em fé da Bahia e do Brasil, ele me perguntou se eu amava essa Igreja. E eu lhe disse que sim, porque me sentia em retorno amado por ela. E é essa sensibilidade desse homem que faz toda a diferença do seu papado. Compreender que Jesus venceu os grandes inimigos do homem, o pecado, o mal e a morte, porque colocou no centro o amor.
Para mim, então, significou muito passar esses anos em Roma, perto do Papa, perto do centro da Igreja, mas, talvez, fundamentalmente, perto dessa mensagem que o Papado de Francisco foi capaz de produzir em tempos tão confusos e obscuros como os nossos atuais. Eu não acredito que o legado de Francisco se encerra com sua morte. A vida e a morte de Francisco são sementes plantadas, inclusive, no meio da Igreja. Uma semente feita de um material quase inédito, proclamada a partir do lugar em que ele ocupou, que é uma capacidade de se dobrar diante do outro à procura daquilo que nos torna iguais, ao invés de procurar e buscar aquilo que nos tornaria superiores.
Eu agradeço muito a Deus por essa oportunidade, agradeço muito a Igreja por ter me dado esse momento riquíssimo e rezo que o legado do Papa Francisco continue, que a janela que ele abriu se torne uma porta. Obrigado.