Nesta quarta-feira (25/04) o bispo da Diocese de Camaçari, Dom João Carlos Petrini recebeu o título de cidadão baiano. A Sessão especial para homenagem foi realizada no plenário da Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA), confira na integra a mensagem deixada por ele na ocasião :
TITULO DE CIDADÃO BAIANO - 25 de abril de 2018
Dom João Carlos Petrini – Assembleia Legislativa - BAHIA -
Agradeço este momento que constitui uma síntese da minha longa vida no Brasil, que iniciou em São Paulo em 1970, e na querida Bahia de Todos os Santos, em 1989.
A cidadania baiana que hoje me é conferida muito me honra porque, atribuindo-me a condição de concidadão, me associa a uma multidão de baianos, muitos ilustres e outros anônimos, mas igualmente geniais, alegres, abertos, com profunda sensibilidade, humana, musical, poética, religiosa que muito aprecio com o desejo de aprender deles.
Muitos deles são meus amigos com os quais compartilho aspectos importantes da minha vida. Orgulho-me por pertencer ao povo baiano, a uma história gloriosa, a uma cultura com importantes raízes históricas, cercado de belezas.
A primeira coisa que chamou minha atenção quando cheguei à Bahia foi o espetáculo da beleza que se encontra em todo lugar, a começar pela Bahia de todos os Santos, com o mar e suas enseadas, com seus morros e matas, o pôr do sol no Farol da Barra, as noites estreladas no sertão, o desdobrar-se tranquilo dos rios, ou o manto verde que de repente cobre as regiões mais áridas do sertão depois de uma chuva, além de muitas outras. Esta beleza convida a reconhecer o Criador que está na origem de tudo isso, um Criador democrático porque oferece a todos a possibilidade de admirar, um Criador e Pai que está também na origem da nossa existência humana, Pai Comum que nos constitui como irmãos.
Ainda mais admirável é a beleza que é realizada como fruto da genialidade e do trabalho de homens e mulheres ao longo das gerações, em cooperação com a criação e a graça de Deus. A arquitetura barroca e neocolonial, as esculturas e pinturas que enfeitam as Igrejas documentam esta realidade, mas também as indústrias do polo, os prédios e as casas.
Observando o povo nas ruas e praças, parece que uma trilha sonora vai movendo os corpos, num caminhar que é quase uma dança. E isto alcança o máximo quando se trata de uma multidão que vai caminhando e cantando como, por exemplo, quando milhares de pessoas se dirigem à Sagrada Colina, Mansão da Misericórdia, pedindo a graça divina da justiça e da concórdia. O mesmo se observa no povo que participa da peregrinação de fé e luz a Candeias, no mês de novembro; na festa de Bom Jesus da Lapa, em agosto, e nas romarias da terra e das águas.
Impressiona também a beleza dos rostos, especialmente das pessoas de idade avançada, com as marcas deixadas pelas lutas da vida, rostos nos quais os olhos se destacam pelo brilho que sinaliza esperança e satisfação pelo caminho percorrido, com os lábios prontos ao sorriso. Estes são sinais da grandeza da alma dessas pessoas, sinais da esperança capaz de dar a volta por cima mesmo diante das circunstâncias mais dramáticas. Essas pessoas confiam na paternidade de Deus, na sua misericórdia que abraça e acompanha. “Oh meu senhor, você enfrentou tudo isso sozinho? Não, meu irmão, eu e Deus.”
Esta beleza tornou-se quotidiana na dedicação e ajuda aos mais pobres e necessitados. Emblemática é a Beata Irmã Dulce dos Pobres com as obras a que ela deu vida, mas também o acolhimento, outrora frequente, de crianças sem pais, num tipo de adoção informal e muito eficaz.
Fico comovido quando penso que, desde o ano de sua fundação, a Cidade do Salvador construiu a Santa Casa da Misericórdia, para atender doentes e necessitados. E, no mesmo ano, realizou a primeira procissão de Corpus Christi, como forma de declarar publicamente o que pode alimentar o ideal que é necessário para construir uma grande cidade. O povo baiano daquele tempo entendia que a comunhão entre os irmãos, com a natureza e com Deus era necessária para construir a sociedade dos irmãos, da solidariedade e da paz, devendo enfrentar diversas injustiças, inclusive a escravidão. Às vezes, esses valores são considerados como um estorvo por quem quer lançar mão de qualquer meio para conquistar, acima de tudo, benesses e poder.
Difunde-se uma mentalidade utilitarista e mercantilista que aposta tudo no poder como se fosse a expressão máxima da grandeza humana. Este novo cenário que a cultura dominante vai formulando, alimenta o processo de banalização, valoriza a agressividade e legitima a vulgaridade.
Difundem-se, assim, dinâmicas sociais e culturais que geram vazio, especialmente entre adolescentes e jovens e abrem a porta à alienação, produzida com uso de drogas (lícitas e ilícitas), que não favorece o exercício da cidadania e o crescimento da personalidade.
Os índices alarmantes de violência são um dos frutos deste contexto, enquanto os ambientes da vida quotidiana se tornam desumanos.
Mas, as forças vivas da sociedade, representadas em grande parte nesta casa legislativa, exercem a cidadania para construir entendimento, para promover a paz e a justiça, para incentivar relações de fraternidade como caminho de superação da violência, da desigualdade e da exclusão, em uma palavra, para cuidar do bem comum.
Entendo que o título de cidadão baiano que hoje me é conferido, de um lado reconhece, de outro incentiva minha inserção neste horizonte de construção de uma sociedade justa e fraterna, em colaboração com as forças vivas da sociedade que se movem nesta direção, respeitando a distinção entre o âmbito da religião e o do Estado, justamente definido como laico. O apreço por essa distinção não impede uma oportuna cooperação para construir caminhos de esperança e de paz, para consolidar a solidariedade.
Permitam-me recordar que eu nasci no final de 1945, depois que meu pai voltou da Segunda Guerra Mundial, por isso, alguém já me identificou como filho da paz. Ainda lembro, nos anos da minha infância e da minha adolescência, o ardor das pessoas (pai, mãe, vizinhos, parentes) para reconstruir o que seis anos de guerra tinham arrasado, não somente as casas e as pontes, as ruas e as escolas, o acesso às redes da água e da eletricidade, mas a confiança entre as pessoas, os relacionamentos fraternos, a solidariedade e a capacidade de cooperar, numa palavra, a democracia que o fascismo e a guerra tinham destruído.
Eu fui muito tocado por este espírito apaixonado para construir uma nova sociedade, e, a partir do pouco-quase nada de que minha família dispunha, eu também batalhei para estudar, trabalhar, crescer. E quando tinha alcançado o que me garantia boas oportunidades de vida, entendi que não poderia ficar em paz se guardasse somente para mim as conquistas realizadas.
Resolvi acompanhar três sacerdotes que abriam uma missão no último bairro de São Paulo, São Mateus, na zona Leste da cidade, imaginando poder ajudar os jovens e pobres a enfrentar as durezas não da guerra, mas da migração e da pobreza, do autoritarismo do regime militar daquela época.
Em determinado momento, ficou claro que mais do que a Ciência Política ou o meu doutorado em Sociologia, o melhor que eu podia oferecer era o que já estava sendo decisivo na minha vida: o encontro com Jesus Cristo e o caminho para fazer a experiência da alegria, da beleza e da paz que somente com Ele podemos conseguir.
O Evangelho de Marcos, no capítulo 10, versículos 29 a 30 constitui um marco na minha história pessoal. Diz o Evangelho: “Não há ninguém que tenha deixado casa, irmãos, irmãs, pai e mãe filhos ou campos por causa de mim e do Evangelho que não receba já aqui, no tempo presente, cem vezes mais casas, irmãos, irmãs, mães, filhos, campos juntamente com perseguições e na era futura, a vida eterna.” Posso atestar que essa palavra é verdadeira. Eu encontrei uma vida cem vezes mais intensa e apaixonada, carregada de significado e de beleza, de utilidade social levando a sério estas palavras de Jesus.
A cidadania que exerço na condição de bispo, enviado na Diocese de Camaçari pelo Papa Bento XVI, tem como meta uma atenção especial às crianças; aos adolescentes e jovens; aos casais e às famílias, aos trabalhadores e aos idosos, comunicando a experiência de um já de alegria e satisfação, enquanto ainda não estão plenamente alcançados os objetivos da sociedade justa e fraterna. Mais que discursos ou doutrinas ou ideologias, a experiência concreta de um bem que já começa a existir, ainda que de forma embrionária, ajuda a vislumbrar o que almejamos para todo o povo, despertando a esperança e a participação em projetos mais amplos, de cunho político.
Mais uma vez quero agradecer todos os presentes, a Assembleia Legislativa da Bahia, os membros da mesa, o Deputado Bira Coroa e todos quantos se dedicaram à realização deste evento. A todos saúdo com afeto e para cada um e cada uma peço as bênçãos de Deus.
Publicado : 26/04/2018
Nesta quarta-feira (25/04) o bispo da Diocese de Camaçari, Dom João Carlos Petrini recebeu o título de cidadão baiano. A Sessão especial para homenagem foi realizada no plenário da Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA), confira na integra a mensagem deixada por ele na ocasião :
TITULO DE CIDADÃO BAIANO - 25 de abril de 2018
Dom João Carlos Petrini – Assembleia Legislativa - BAHIA -
Agradeço este momento que constitui uma síntese da minha longa vida no Brasil, que iniciou em São Paulo em 1970, e na querida Bahia de Todos os Santos, em 1989.
A cidadania baiana que hoje me é conferida muito me honra porque, atribuindo-me a condição de concidadão, me associa a uma multidão de baianos, muitos ilustres e outros anônimos, mas igualmente geniais, alegres, abertos, com profunda sensibilidade, humana, musical, poética, religiosa que muito aprecio com o desejo de aprender deles.
Muitos deles são meus amigos com os quais compartilho aspectos importantes da minha vida. Orgulho-me por pertencer ao povo baiano, a uma história gloriosa, a uma cultura com importantes raízes históricas, cercado de belezas.
A primeira coisa que chamou minha atenção quando cheguei à Bahia foi o espetáculo da beleza que se encontra em todo lugar, a começar pela Bahia de todos os Santos, com o mar e suas enseadas, com seus morros e matas, o pôr do sol no Farol da Barra, as noites estreladas no sertão, o desdobrar-se tranquilo dos rios, ou o manto verde que de repente cobre as regiões mais áridas do sertão depois de uma chuva, além de muitas outras. Esta beleza convida a reconhecer o Criador que está na origem de tudo isso, um Criador democrático porque oferece a todos a possibilidade de admirar, um Criador e Pai que está também na origem da nossa existência humana, Pai Comum que nos constitui como irmãos.
Ainda mais admirável é a beleza que é realizada como fruto da genialidade e do trabalho de homens e mulheres ao longo das gerações, em cooperação com a criação e a graça de Deus. A arquitetura barroca e neocolonial, as esculturas e pinturas que enfeitam as Igrejas documentam esta realidade, mas também as indústrias do polo, os prédios e as casas.
Observando o povo nas ruas e praças, parece que uma trilha sonora vai movendo os corpos, num caminhar que é quase uma dança. E isto alcança o máximo quando se trata de uma multidão que vai caminhando e cantando como, por exemplo, quando milhares de pessoas se dirigem à Sagrada Colina, Mansão da Misericórdia, pedindo a graça divina da justiça e da concórdia. O mesmo se observa no povo que participa da peregrinação de fé e luz a Candeias, no mês de novembro; na festa de Bom Jesus da Lapa, em agosto, e nas romarias da terra e das águas.
Impressiona também a beleza dos rostos, especialmente das pessoas de idade avançada, com as marcas deixadas pelas lutas da vida, rostos nos quais os olhos se destacam pelo brilho que sinaliza esperança e satisfação pelo caminho percorrido, com os lábios prontos ao sorriso. Estes são sinais da grandeza da alma dessas pessoas, sinais da esperança capaz de dar a volta por cima mesmo diante das circunstâncias mais dramáticas. Essas pessoas confiam na paternidade de Deus, na sua misericórdia que abraça e acompanha. “Oh meu senhor, você enfrentou tudo isso sozinho? Não, meu irmão, eu e Deus.”
Esta beleza tornou-se quotidiana na dedicação e ajuda aos mais pobres e necessitados. Emblemática é a Beata Irmã Dulce dos Pobres com as obras a que ela deu vida, mas também o acolhimento, outrora frequente, de crianças sem pais, num tipo de adoção informal e muito eficaz.
Fico comovido quando penso que, desde o ano de sua fundação, a Cidade do Salvador construiu a Santa Casa da Misericórdia, para atender doentes e necessitados. E, no mesmo ano, realizou a primeira procissão de Corpus Christi, como forma de declarar publicamente o que pode alimentar o ideal que é necessário para construir uma grande cidade. O povo baiano daquele tempo entendia que a comunhão entre os irmãos, com a natureza e com Deus era necessária para construir a sociedade dos irmãos, da solidariedade e da paz, devendo enfrentar diversas injustiças, inclusive a escravidão. Às vezes, esses valores são considerados como um estorvo por quem quer lançar mão de qualquer meio para conquistar, acima de tudo, benesses e poder.
Difunde-se uma mentalidade utilitarista e mercantilista que aposta tudo no poder como se fosse a expressão máxima da grandeza humana. Este novo cenário que a cultura dominante vai formulando, alimenta o processo de banalização, valoriza a agressividade e legitima a vulgaridade.
Difundem-se, assim, dinâmicas sociais e culturais que geram vazio, especialmente entre adolescentes e jovens e abrem a porta à alienação, produzida com uso de drogas (lícitas e ilícitas), que não favorece o exercício da cidadania e o crescimento da personalidade.
Os índices alarmantes de violência são um dos frutos deste contexto, enquanto os ambientes da vida quotidiana se tornam desumanos.
Mas, as forças vivas da sociedade, representadas em grande parte nesta casa legislativa, exercem a cidadania para construir entendimento, para promover a paz e a justiça, para incentivar relações de fraternidade como caminho de superação da violência, da desigualdade e da exclusão, em uma palavra, para cuidar do bem comum.
Entendo que o título de cidadão baiano que hoje me é conferido, de um lado reconhece, de outro incentiva minha inserção neste horizonte de construção de uma sociedade justa e fraterna, em colaboração com as forças vivas da sociedade que se movem nesta direção, respeitando a distinção entre o âmbito da religião e o do Estado, justamente definido como laico. O apreço por essa distinção não impede uma oportuna cooperação para construir caminhos de esperança e de paz, para consolidar a solidariedade.
Permitam-me recordar que eu nasci no final de 1945, depois que meu pai voltou da Segunda Guerra Mundial, por isso, alguém já me identificou como filho da paz. Ainda lembro, nos anos da minha infância e da minha adolescência, o ardor das pessoas (pai, mãe, vizinhos, parentes) para reconstruir o que seis anos de guerra tinham arrasado, não somente as casas e as pontes, as ruas e as escolas, o acesso às redes da água e da eletricidade, mas a confiança entre as pessoas, os relacionamentos fraternos, a solidariedade e a capacidade de cooperar, numa palavra, a democracia que o fascismo e a guerra tinham destruído.
Eu fui muito tocado por este espírito apaixonado para construir uma nova sociedade, e, a partir do pouco-quase nada de que minha família dispunha, eu também batalhei para estudar, trabalhar, crescer. E quando tinha alcançado o que me garantia boas oportunidades de vida, entendi que não poderia ficar em paz se guardasse somente para mim as conquistas realizadas.
Resolvi acompanhar três sacerdotes que abriam uma missão no último bairro de São Paulo, São Mateus, na zona Leste da cidade, imaginando poder ajudar os jovens e pobres a enfrentar as durezas não da guerra, mas da migração e da pobreza, do autoritarismo do regime militar daquela época.
Em determinado momento, ficou claro que mais do que a Ciência Política ou o meu doutorado em Sociologia, o melhor que eu podia oferecer era o que já estava sendo decisivo na minha vida: o encontro com Jesus Cristo e o caminho para fazer a experiência da alegria, da beleza e da paz que somente com Ele podemos conseguir.
O Evangelho de Marcos, no capítulo 10, versículos 29 a 30 constitui um marco na minha história pessoal. Diz o Evangelho: “Não há ninguém que tenha deixado casa, irmãos, irmãs, pai e mãe filhos ou campos por causa de mim e do Evangelho que não receba já aqui, no tempo presente, cem vezes mais casas, irmãos, irmãs, mães, filhos, campos juntamente com perseguições e na era futura, a vida eterna.” Posso atestar que essa palavra é verdadeira. Eu encontrei uma vida cem vezes mais intensa e apaixonada, carregada de significado e de beleza, de utilidade social levando a sério estas palavras de Jesus.
A cidadania que exerço na condição de bispo, enviado na Diocese de Camaçari pelo Papa Bento XVI, tem como meta uma atenção especial às crianças; aos adolescentes e jovens; aos casais e às famílias, aos trabalhadores e aos idosos, comunicando a experiência de um já de alegria e satisfação, enquanto ainda não estão plenamente alcançados os objetivos da sociedade justa e fraterna. Mais que discursos ou doutrinas ou ideologias, a experiência concreta de um bem que já começa a existir, ainda que de forma embrionária, ajuda a vislumbrar o que almejamos para todo o povo, despertando a esperança e a participação em projetos mais amplos, de cunho político.
Mais uma vez quero agradecer todos os presentes, a Assembleia Legislativa da Bahia, os membros da mesa, o Deputado Bira Coroa e todos quantos se dedicaram à realização deste evento. A todos saúdo com afeto e para cada um e cada uma peço as bênçãos de Deus.
Publicado : 26/04/2018


