Revista Ave Maria: Em dezembro o país se transforma em uma grande festa, e a maior motivação é a comemoração do Natal. Muitos, mesmo não cristãos, entram no embalo e promovem reuniões familiares, entre amigos, troca de presentes etc. Qual é o principal motivo de tudo isso? É simplesmente “seguir o fluxo” ou há algo que vai além?
- Dom João Carlos Petrini: O Natal constitui certamente uma das maiores festas do mundo. Com o natal de Jesus, Deus o Criador, tomou a iniciativa de chegar até nós, movido por compaixão. O Natal é um Fato que aconteceu na história: “Quando Cesar Augusto era imperador de Roma e Quirino era Governador da Síria, aconteceu... “ (cf. Lc 2, 1-2), diz o Evangelho de Lucas. E assim, o Mistério que está na origem de tudo, tornou-se um homem, entrou no nosso horizonte de percepção, podendo ser visto, ouvido e tocado e foi transmitido a nós por testemunhas oculares. São João, na sua primeira carta afirma: “O que ouvimos, o que vimos com nossos olhos, ...e o que as nossas mãos apalparam,...nós vimos e testemunhamos a vida eterna que a vós anunciamos ... para que a nossa alegria seja completa” (1Jo 1, 1-4).
O Natal é o anúncio de que o Filho de Deus tornou-se uma presença humana entre nós, podendo ser encontrado, reconhecido, acolhido e amado. Ele veio como Salvador, para salvar não somente nossas almas, depois de mortos, mas agora e tem o poder divino de nos salvar: da solidão, da insensatez, do medo, da agressividade, do desequilíbrio, do pecado, respondendo àqueles desejos infinitos de felicidade que temos em nós. A prova de que não se trata de uma fantasia, mas da realidade, é que quando o reconhecemos, nossa existência começa a mudar, nos tornamos mais humanos, mais capazes de acolher, perdoar, partilhar. A prova é a experiência humana que fazemos e que tem uma qualidade extraordinária, mesmo dentro da vida ordinária de todos os dias.
Mas, nos tempos atuais, muitos vivem o Natal sem a compreensão do acontecimento que lhe deu origem. No período de Natal difunde-se um clima de alegria, fraternidade, festa, sem que os reais motivos que dão razão de tudo isso estejam presentes na consciência das pessoas.
Fazer festa, não tendo a consciência das razões que a motivam, é bastante comum em nosso tempo. Basta pensar às festas juninas e às danças, às comidas e bebidas, à maneira de vestir-se, próprias dessa época do ano, que permanecem nas tradições populares, especialmente no Nordeste e até se intensificam graças aos patrocínios de órgãos públicos e de empresas. No entanto, perde-se o nexo com suas raízes, com a figura de São João Batista.
Em geral, fazer algo sem possuir as razões do que está se fazendo, é sinal de pouca inteligência.
No período do Natal, todas as pessoas, com raras exceções, participam do clima de festa. Os colegas de trabalho se aproximam, busca-se paz e alegria, trocam-se presentes, exatamente para manifestar sentimentos de fraternidade que durante o ano têm menos espaço, já que a correria parece prevalecer. As administrações públicas participam da criação deste clima, enfeitando as ruas e os edifícios públicos. As lojas também são enfeitadas, bem como as residências. Tudo parece adquirir vida e beleza: até os objetos inanimados, como as árvores, se enchem de luzes, num espetáculo que fascina crianças e adultos. Dessa maneira, todos procuram dar expressão ao desejo de que a realidade tenha beleza, que possamos ter alegria e paz, viver como irmãos. A luz e as cores vivas contribuem para dar um novo rosto a um quotidiano que, muitas vezes, se apresenta sem beleza e sem graça.
Algo parecido acontece quando se organiza uma festa de casamento: tudo deve orientar os participantes a se sentirem parte de um mundo maravilhoso. Procura-se viver, ao menos por algumas horas, um mundo encantado e admirável, que os corações de todos ardentemente desejam, mas que não acreditam que possa existir na realidade. Implicitamente, isto constitui uma forte crítica ao mundo que vamos construindo no nosso quotidiano. De fato, se ele fosse fonte de satisfação, não haveria razões para construir um mundo de fantasia, na tentativa de aliviar as tensões e os conflitos do dia a dia.
Exprime-se, dessa maneira, o anseio mais profundo do coração humano: são exigências de paz e de justiça, de liberdade e de alegria, que, ao longo dos milênios, têm se manifestado nas expressões mais geniais da arte. Estas exigências constituem a mais nobre expressão do coração humano que busca irresistivelmente realização e felicidade. As páginas do Profeta Isaias, que são lidas durante o tempo de Advento, expressam exigências semelhantes: o sonho de um mundo de paz no qual todas as divisões e opressões e violências serão superadas. E assim, o cordeiro poderá pastar junto com o lobo, e as armas serão fundidas para fazer instrumentos de trabalho. (Cf. Isaias, capítulos 9 e 11).
Mas o Natal cristão vai muito além desta inquietação que busca um mundo mais humano. O Natal apresenta a resposta que o próprio Deus decidiu dar a essas exigências humanas, ao desejo infinito que elas promovem.
Quando falta a resposta certa, as pessoas buscam compensações, mesmo que sejam destruidoras do bem e da paz, da saúde e até da vida própria e de outros. O uso excessivo de álcool, as drogas, atitudes radicais para produzir adrenalina, a invasão da cultura da banalidade provavelmente existem porque muitos não encontraram Quem efetivamente responde ao nosso desejo de felicidade, ou receberam um entendimento distorcido de sua Pessoa.
Isto equivale a retornar à época pré-cristã, quando a resposta à inquietação humana era apenas uma promessa para um futuro distante. Com o Natal, a resposta nos foi dada. A beleza e o significado da vida se fizeram carne e habitam entre nós, é Jesus o Filho de Maria, o Filho de Deus. Existe quem responde ao infinito desejo de felicidade, existe e nós o encontramos, é Jesus Cristo. Você também pode encontrá-lo. Venha ver. Esta é a mensagem atualizada de um feliz Natal
No entanto, a operação que está em curso e a respeito da qual os cristãos devem estar atentos é a substituição do acontecimento cristão por uma mitologia (papai Noel) ou por uma utopia sem consistência real. A resposta que Jesus veio trazer tende a ser ignorada ou recusada. Os enfeites das cidades, das vias públicas e das praças, das lojas e até das residências não trazem mais símbolos que remetem à realidade do Natal, mas têm a função de nos introduzir a um mundo de sonho, bom para as crianças, mas sem relevância na realidade. O papai Noel e genéricos sentimentos de bondade produzem efeitos momentâneos e superficiais. Nunca se ouviu dizer que papai Noel tenha mudado a vida de alguém.
Mesmo assim, é possível levar a sério esse desejo de alegria e de paz, de relacionamentos mais acolhedores e fraternos, não no horizonte do sonho que logo acaba e sim no horizonte da vida cristã, que reconhece a presença de Jesus Cristo como luz que ilumina nossa aventura humana, como sabedoria que orienta, como força que sustenta o ânimo, como Presença que corresponde ao desejo mais profundo do nosso coração. Neste sentido, o tempo de Natal pode ser vivido como o início de uma etapa nova de existência que se inaugura pela presença de Cristo. Isto começa a acontecer nas comunidades de vida fraterna, concretiza-se no perdão e no acolhimento recíproco, na atenção e no serviço prestado aos pobres e sofredores, dando visibilidade a uma humanidade nova.
Para isso, é necessário não reduzir o significado do Natal a uma genérica bondade, mas resgatar sua dimensão real, a presença de Jesus Cristo, Filho de Deus, que vem ao nosso encontro para nos salvar da vida desumana e banal na qual estamos imersos e nos encaminhar para um mais de inteligência e de afeição que se constrói ao longo do tempo e se torna relevante social e historicamente em concretas comunidades cristãs, na Igreja.
Nessa perspectiva, é de fundamental importância valorizar os símbolos cristãos: o presépio, presente não apenas nas igrejas, mas em cada família, poderá ser motivo de encontro e reunião para fazer memória dos acontecimentos que são celebrados. E assim trocar presentes, enfeitar a casa, preparar a ceia de Natal, visitar amigos e convidar familiares, tudo pode ser vivido não como submissão à lógica e aos interesses do mercado, mas como expressão de maravilha e de gratidão pela Presença que muda a vida.
Há muitas maneiras de se viver o Natal em nossa época, desde a mais banal e superficial, até a mais comovida resposta ao amor de Cristo. Tudo se joga na liberdade e na inteligência de cada pessoa que é chamada a escolher como viver, como conviver, quem ser. Feliz Natal para você, caro amigo leitor.
Entrevista concedida à revista Ave Maria


