Quarenta dias após a festa da Páscoa, a Igreja celebra a Ascensão do Senhor. Essa Solenidade é com maior grandeza celebrada no 7º domingo da páscoa, que este ano será no dia 24 de maio, neste dia também recordamos o Dia Mundial das Comunicações Sociais. Confira a reflexão do bispo diocesano Dom João Carlos Petrini para o dia da Ascensão do Senhor :
Ascensão
A Ascensão do Senhor ao céu foi a última aparição do Ressuscitado. Mas esta despedida é totalmente diferente daquela da Sexta Feira Santa. Naquele momento Jesus parecia ter fracassado. A despedida da Ascensão tem algo de triunfal. Agora Ele não é entregue à morte, antes, entra na vida mais intensa e profunda (no céu). Não é o derrotado, Ele é o vitorioso pelo poder divino que o ressuscita.
Jesus, subindo ao céu, leva consigo a nossa humanidade carnal. Ele é o Filho de Deus que abraçou a nossa humanidade e a tomou para si, para compartilhar conosco todas as circunstâncias da existência humana até a morte de cruz e leva esta nossa humanidade, conduzindo-a consigo, em sua vitória até o céu.
A Ascensão é a vitória definitiva de Jesus Cristo, mas a sua redenção alcança o coração humano, exalta a nossa condição humana que participa dessa vitória, e isso é motivo de esperança e de alegria para nós.
O céu na Sagrada Escritura indica a verdade da terra, o nível mais profundo da realidade. A nossa humanidade é levada ao céu por Jesus vitorioso, assim, alcança a sua verdade, o significado mais profundo de tudo, alcança a beleza, constrói o bem.
Jesus sobe ao céu e fica à direita do Pai. O Pai é o Criador, Ele está na origem de todas as coisas que criou e continua criando. O Pai está na raiz de todas as coisas, é a raiz que a tudo faz existir. Jesus Cristo Ressuscitado que sobe ao céu fica à direita do Pai, fica na raiz de todas as coisas, lá onde elas são criadas. Quando nós temos um olhar que não para na aparência, mas penetra até a raiz das coisas e das pessoas, podemos perceber as coisas e as pessoas como que saindo das mãos do Criador e nelas podemos reconhecer a presença de Jesus Cristo. Olhando para o amigo, pra a pessoa amada, para a esposa ou para o filho, para uma circunstância da vida, o homem e a mulher de fé podem dizer: Tu Senhor estás aqui. Na aparência desta pessoa, na raiz misteriosa que a faz existir, eu reconheço os sinais de tua presença divina.
Não sabemos como de fato aconteceram as coisas nos detalhes. Lucas relata que Jesus, durante os 40 dias depois da Ressurreição, mostrou-se aos discípulos, falou com eles, explicando as coisas do Reino de Deus. O texto, no original grego, afirma que o Senhor: “tinha comido sal com eles”. O sal era um dom precioso com o qual se acolhiam os hóspedes. Dever-se-ia traduzir: “Ele acolheu os discípulos em sua hospitalidade”. Mas o sal é também sinal de paixão, dá sabor aos alimentos e serve para conservar, age contra a corrupção, contra a morte.
Lucas afirma que Jesus abriu os braços e os abençoou. Enquanto os abençoava, desapareceu de sua vista. Sua última imagem são os braços abertos no gesto da benção. As mãos de Cristo tornaram-se o teto que nos cobre e a força que abre a porta do mundo rumo ao alto. Abençoando-nos, Ele vai e abençoando-nos Ele fica, pois Ele disse que fica conosco todos os dias, até o fim dos tempos.
Os discípulos retomaram seu caminho não como quem é abandonado, mas como quem recebeu a benção. Sabiam que permaneceriam para sempre sob Suas mãos que abençoam “Não vos deixo órfãos diz Jesus, eu venho a vós” (Jo 14, 18). E ainda: “Eu pedirei ao Pai e Ele vos dará outro Consolador, para que permaneça convosco para sempre” (Jo14, 16). Assim, os apóstolos conquistaram a certeza: “Eis que Eu estarei convosco todos os dias, até o fim dos tempos (Mt 28, 20).
Pilatos, na Sexta Feira Santa, apresentando Jesus à multidão que gritava, tinha dito: “Eis o homem” mostrando Jesus como símbolo do homem humilhado, derrotado, marcado pelo horror de todas as dores. Este é o homem, nos dizem os violentos, os prepotentes de todos os tempos, inclusive do nosso tempo. Mas na Ascensão, Jesus diz: Eis o homem, seu destino é a vitória, seu destino definitivo é a ressurreição e a vitória sobre o mal, ele é chamado a subir ao céu, isto é, a viver já nesta terra com beleza, com significado, com paixão. A Ascensão de Cristo indica a vitória sobre o velho Adão, que parece destinado ao fracasso e à morte.
O Ressuscitado é o Senhor do Universo, mas seu senhorio não humilha a terra, restitui-lhe o esplendor, a possibilidade de manifestar sua beleza e de mostrar a potência de Deus. Cristo que sobe ao céus levanta a imagem decaída de Adão, é a reabilitação do homem. O que humilha e abaixa o ser humano não é receber golpes da vida, é golpear, ferir, humilhar o outro. Desonrado não é quem é ofendido, mas quem ofende. O que levanta o ser humano não é a soberba (o orgulho), mas a humildade, não é a autoglorificação que o torna grande, mas a comunhão com Deus da qual é capaz e a comunhão que acolhe e valoriza as outras pessoas.
A Ascensão é um acontecimento rumo o alto do qual todos somos chamados a participar, nos diz que o ser humano pode viver olhando para o alto. Aliás, a altura que corresponde à medida humana, é a altura do mesmo Deus, na profundidade das coisas, não na superficialidade, no significado verdadeiro, não na banalidade que tudo desvaloriza e debocha.
O ser humano é imagem e semelhança de Deus. A imagem do homem é elevada, mas nós temos a liberdade de puxá-la para baixo e desfigurá-la ou então, podemos nos deixar elevar, levantar para o alto.
Não compreendemos o ser humano só perguntando-nos de onde vem (do pó da terra), o compreendemos melhor quando nos perguntamos onde ele pode chegar. Só nessa altura, a imagem do ser humano torna-se clara. E somente quando, olhando outra pessoa, percebemos sua possibilidade de elevar-se, nasce então um respeito incondicional. Um respeito que o considera um ser sagrado, mesmo quando se encontra em situações de profunda humilhação.
Dom João Carlos Petrini
Bispo de Camaçari - Bahia