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A Santa Missa foi realizada no domingo (07/01) e presidida pelo bispo Dom João Carlos Petrini

FESTA DE SÃO THOMAZ  DE CANTUÁRIA -   2018

 Prezados irmãos,

Encontramo-nos na Praça da Catedral para festejar o Patrono desta Paróquia e de toda a Diocese de Camaçari, o glorioso São Tomás de Cantuária. Estamos ainda no início do ano, que acolhemos como uma graça, como um dom de Deus. Ainda trazemos no coração o anúncio dos Anjos aos pastores: nasceu para vós um Salvador.

O mundo moderno achou que não mais necessitava de um Salvador, que se salva por si mesmo com a ciência, com a tecnologia, com o poder. Mas, quando esta mentalidade dominou, produziu desastres nunca vistos antes, inclusive no nosso querido Brasil. Esses caminhos são enganosos.

Admiramos a ciência, utilizamos os artefatos da tecnologia, mas isto não basta. Nosso coração tem uma aspiração infinita à paz, ao bem, à felicidade, nossa inteligência exige compreender o significado de tudo, (da vida, do trabalho, do afeto, de ser pai e de ser mãe, da saúde e da doença, e até da morte). O poder e a tecnologia não sabem responder a essa aspiração a essa exigência. Weber

Este nosso mundo cresceu na ciência e na tecnologia, mas não cresceu na capacidade de usar o poder com sabedoria e com justiça, não cresceu na responsabilidade moral, na capacidade de construir um desenvolvimento sustentável, de conviver na paz. Despertaram-se, assim, forças destruidoras do bem, da paz, da dignidade e do bem comum.

Jesus é o Salvador, sim. Ele quer salvar a nossa existência humana das decisões insensatas, da maldade que envenena, do ódio, da solidão e do vazio, de atitudes que destroem o bem e a paz. Ele, o Senhor se doa a nós para que vivamos com equilíbrio, justiça e piedade, conforme o seu desígnio de amor.

Vou falar três coisas: uma introdução sobre o momento da Igreja e da nossa sociedade, uma palavra sobre as leituras da Sagrada Escrituras que ouvimos, hoje, em que a Igreja celebra os Santos Reis, e uma palavra para recordar a figura do glorioso São Thomaz de Cantuária.

I

Estamos felizes com o Papa Francisco que nos convida a descobrir a “alegria do Evangelho” e continua a renovar com coragem a Igreja e as relações com o mundo atual. Nestes últimos tempos o Papa Francisco tem convidado a acolher os mais pobres entre os pobres, os migrantes, os refugiados, os que fogem de situações de conflito, devendo abandonar tudo para trás. O convite vale para todos nós, para que tenhamos um coração aberto para acolher os sofredores de nossa terra.

A Igreja no Brasil nos convida, neste novo ano, a refletir sobre o tema “Fraternidade e superação da violência”, recordando o Evangelho de Mateus, (capítulo 23, versículo 8): “Vós sois todos irmãos”. Dedicaremos todo o primeiro semestre deste ano a pensar os caminhos de paz que podemos percorrer juntos, como povo de Camaçari e de toda a Diocese. Alguns dos nossos municípios estão entre os mais violentos do Brasil e não podemos ficar só lamentando tantas mortes violentes, pensando que outros devem cuidar desse problema.

"Promover a paz” será o nosso empenho maior, procurando desarmar os ânimos e reconquistar a capacidade de acolher, de perdoar, de valorizar as outras pessoas. Recordo como Jesus desarmou os velhos que queriam apedrejar a pecadora apanhada em flagrante adultério, dizendo que quem estivesse sem pecado podia atirar a primeira pedra. Aqueles homens deixaram cair as pedras de suas mãos e foram embora, enquanto Jesus escrevia no chão os pecados deles. E Jesus disse à mulher: “Mulher, ninguém te condenou?” “Ninguém, Senhor”. “Eu Também não te condeno. Vai e não peques mais!” (Jo 8,      )

Precisamos aprender a desmanchar a agressividade, a desarmar os ânimos antes que a violência exploda de forma destruidora, respeitando o outro na sua maneira de ser, sua dignidade humana, sua liberdade, sua integridade física.

Este nosso tempo foi definido como época da pós-verdade e fico impressionado com a facilidade com a qual são veiculadas mentiras grosseiras através das redes sociais, que acabam envenenando os ânimos, favorecendo um clima de animosidade e de agressividade. Jesus, no Evangelho de São João (8, 44), diz que “a mentira vem do diabo, porque ele é mentiroso e pai da mentira”. Espero que ninguém queira agir como seu colaborador, caindo em suas armadilhas.

II

A Liturgia de hoje celebra os santos reis. Eles eram homens inteligentes, atentos a tudo o que acontecia. Eles tinham tudo, eram reis, no entanto viviam inquietos, buscando algum sinal que apontasse para uma vida mais humana, mais carregada de significado, de beleza, mais útil para toda a sociedade. Por isso, enfrentaram os perigos de uma longa viagem, apoiando-se na amizade entre si para colocar-se em busca de respostas adequadas à sua inquietação. Seguiram o sinal da estrela e encontraram Jesus que reconheceram como o enviado de Deus vindo a este mundo para responder aos desejos mais profundos do coração humano, ao qual, mesmo sendo reis, não eram capazes de responder.

Que diferença com a superficialidade grosseira de outro rei: Herodes. Ele também queria ter informações a respeito de Jesus, mas para eliminá-lo, movido pelo medo que o menino viesse a ameaçar seu poder.

Os santos reis nos convidam a não ficar satisfeitos com a situação em que estamos, a enxergar os sinais que Deus nos manda (a estrela guia), a buscar o Salvador para que nós também possamos encontrar Aquele que é fonte da paz e da sabedoria. Nós todos necessitamos do Salvador, os que são pobres como os antigos pastores e os que são ricos e poderosos, como os santos reis.

III

São Thomaz de Cantuária (1118-1170) era um homem de inteligência brilhante, estudou filosofia, direito, teologia em Paris e em Bologna. Tornou-se, em seguida, secretário do bispo de Cantuária, Teobaldo.

Quando, em 1154, foi coroado Rei da Inglaterra Henrique II, um jovem de 20 anos, Thomaz com 34 anos foi indicado para ser o seu braço direito, o primeiro ministro do reino. Entre os dois cresceram amizade e estima e, em poucos anos, fizeram da Inglaterra uma grande potência. Thomaz estava a serviço do Rei, convivia com o poder e com a riqueza, mas entendeu que a verdadeira riqueza era Jesus e deu a vida para permanecer fiel a Ele.

Quando Teobaldo estava bem idoso, escolheu Thomaz para sucedê-lo como bispo de Cantuária. O rei Henrique II se alegrou com isto, pois desejava ser senhor absoluto não só do Estado mas também da Igreja. Esperava contar com o amigo Thomaz para desapropriar terras da Igreja e submeté-la ao seu poder.

Mas, Thomaz, que alimentava sua vida cristã nos sacramentos e com a amizade de grandes homens de fé e como bispo vivia uma vida de simplicidade e pobreza, decidiu servir  um único Rei, Jesus Cristo e passou a defender a liberdade da Igreja. Ele não reconhecia à coroa o poder de interferir na vida da Igreja.

Em 1164, Thomaz foi condenado por traição e os bens de sua família foram confiscados. Refugiou-se na França, como perseguido. Depois de seis anos em exílio, Thomaz voltou para sua terra, acolhido e aclamado em toda parte por uma multidão de fieis. Chegou a Cantuária  em 29 de Dezembro de 1170. Quatro cavaleiros, imaginando fazer um favor ao Rei, entraram na Catedral e o assassinaram nos degraus do altar, quando os padres cantavam as vésperas.

Já na manhã seguinte a multidão invocava Thomaz como santo. Sua morte despertou novo fervor cristão em todo o povo. O lugar do martírio tornou-se meta de grande veneração popular, verificando-se numerosas curas e milagres. Três anos depois, foi proclamado santo.

São Thomaz de Cantuária é um homem que prezou a fidelidade a Deus e à Igreja mais do que o apego ao poder e às riquezas. E derramou seu sangue para que a Igreja continuasse livre. Ele é para nós um modelo de vida cristã e um intercessor junto a Deus, para que nos socorra em nossas necessidades e tribulações.

Neste inicio de ano, estamos carregados das melhores esperanças, estamos aqui para pedir: que o desenvolvimento se consolide e voltem muito novos empregos; que os índices de violência possam regredir pelo empenho de cada um na construção da paz; que os interesses de grupos, mesmo legítimos, sejam defendidos sem ameaçar a segurança do povo; que a luta política para consolidar a democracia seja conduzida nos limites da justiça, evitando prejudicar o bem comum e a paz.

Para isso, é necessário que as pessoas cultivem um horizonte religioso que transcende o interesse imediato, buscando a realização do desígnio de Deus, o seu Reino de fraternidade e de paz. Este é o momento para renovar nossa Aliança com Deus, para acolher os dez mandamentos. Para rezar. A maior alegria, a admiração, a satisfação na vida, a gratidão florescem no encontro com Jesus. Ele venceu o mal e a morte e quer doar a nós sua potência divina. Na ausência deste horizonte religioso, nos movem somente em função do interesse e da vontade que prevaleça a qualquer custo.

Oh nossa Senhora das Candeias, defendei-nos e protegei-nos e fazei brilhar em nossos corações a Luz de Cristo, para que todo o povo de Camaçari e da Diocese experimente um ano de paz, de justiça, de verdadeiro bem. Glorioso são Thomaz, nosso padroeiro, que orientaste o jovem rei Henrique II, orientai agora os jovens de Camaçari para que caminhem com Jesus, cresçam como homens e mulheres retos, apaixonados pelo bem e pela paz.

                                                                                 D. João Carlos Petrini Bispo de Camaçari

 
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