ASCENSÃO
A Ascensão do Senhor ao céu foi a última aparição do Ressuscitado. Mas esta despedida é totalmente diferente daquela da Sexta Feira Santa. Naquele momento Jesus parecia ter fracassado. A despedida da Ascensão tem algo de triunfal. Agora Ele não é entregue à morte, antes, entra na vida mais intensa e profunda (no céu). Não é o derrotado, Ele é o vitorioso pelo poder divino que o ressuscita.
Jesus, subindo ao céu, leva consigo a nossa humanidade carnal. Ele é o Filho de Deus que abraçou a nossa humanidade e a tomou para si, para compartilhar conosco todas as circunstâncias da existência humana até a morte de cruz e leva esta nossa humanidade, conduzindo-a consigo, em sua vitória até o céu.
A Ascensão é a vitória definitiva da redenção que alcança o coração humano, por isso, torna-se motivo de alegria.
O céu na Sagrada Escritura indica a profundidade da terra, o nível mais profundo da realidade. A nossa humanidade é levada ao céu por Jesus vitorioso, quer dizer que alcança a sua verdade, o significado mais profundo de tudo, alcança a beleza, constrói o bem.
Jesus sobe ao céu e fica à direita do Pai. O Pai é o Criador, Ele está na origem de todas as coisas que criou e continua criando. O Pai está na raiz de todas as coisas, é a raiz que a tudo faz existir. Jesus Cristo Ressuscitado que sobe ao céu fica é direita do Pai, fica na raiz de todas as coisas, lá onde elas são criadas. Quando nós temos um olhar que não para na aparência, mas penetra até a raiz das coisas e das pessoas, podemos perceber as coisas e as pessoas como que saindo das mãos do Criador e nelas podemos reconhecer a presença de Jesus Cristo. Olhando para o amigo, pra a pessoa amada, para a esposa ou para o filho, para uma circunstância da vida, o homem e a mulher de fé podem dizer: Tu Senhor estás aqui. Na aparência desta pessoa, desta circunstância, eu reconheço os sinais de tua presença divina.
Não sabemos como de fato aconteceram as coisas nos detalhes. Lucas relata que Jesus, durante os 40 dias depois da Ressurreição, mostrou-se aos discípulos, falou com eles, explicando as coisas do Reino de Deus. O texto, no original grego, afirma que o Senhor: “tinha comido sal com eles”. O sal era um dom precioso com o qual se acolhiam os hospedes. Dever-se-ia traduzir: “Ele os acolheu em sua hospitalidade“, ou “Ele acolheu sua humanidade inteira”. Mas o sal é também sinal de paixão, dá sabor aos alimentos e serve para conservar, age contra a corrupção, contra a morte.
Lucas afirma que Jesus abriu os braços e os abençoou. Enquanto os abençoava, desapareceu de sua vista. Sua última imagem são os braços abertos no gesto da benção. As mãos de Cristo tornaram-se o teto que nos cobre e a força que abre a porta do mundo rumo ao alto. Abençoando-nos, Ele vai e abençoando-nos Ele fica, pois Ele disse que fica conosco todos os dias, até o fim dos tempos.
Os discípulos retomaram seu caminho não como quem é abandonado, mas como quem recebeu a benção. Sabiam que permaneceriam para sempre sob Suas mãos que abençoam “Não vos deixo órfãos diz Jesus, eu venho a vós” (Jo 14,18). E ainda “Eu pedirei ao Pai e Ele vos dará outro consolador, para que permaneça convosco para sempre” (Jo 14,16). Assim os apóstolos conquistaram a certeza : “Eis que Eu estarei convosco todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28,20).
Pilatos, na Sexta Feira Santa, apresentando Jesus à multidão que gritava, tinha dito: “Eis o homem” mostrando Jesus como símbolo do homem humilhado, derrotado, marcado pelo horror de todas as dores. Este é o homem, nos dizem os violentos, os prepotentes de todos os tempos, inclusive do nosso tempo. Mas a Ascensão de Cristo indica a vitória sobre o velho Adão, que parece destinado ao fracasso e à morte. O Ressuscitado é o Senhor do Universo, mas seu senhorio não humilha a terra, restitui-lhe o esplendor, a possibilidade de manifestar sua beleza e de mostrar a potência de Deus. Cristo que sobe ao céu levanta a imagem decaída de Adão, é a reabilitação do homem. O que humilha e abaixa o ser humano não é receber golpes da vida, é golpear, ferir, humilhar o outro. Desonrado não é quem é ofendido, mas quem ofende. O que levanta o ser humano não é a soberba (o orgulho), mas a humildade, não é a autoglorificação que torna grande, mas a comunhão com Deus da qual é capaz e a comunhão que acolhe e valoriza as outras pessoas.
A ascensão é um acontecimento rumo o alto do qual todos somos chamados a participar, nos diz que o ser humano pode viver olhando para o alto. Aliás, a altura que corresponde à medida humana é altura do mesmo Deus, na profundidade das coisas, não na superficialidade, no significado verdadeiro não na banalidade que tudo desvalida e debocha.
O ser humano é imagem e semelhança de Deus. A imagem do homem é elevada, mas nós temos a liberdade de puxa-la para baixo e configurá-la ou então podemos nos deixar elevar, levantar para o alto.
Não compreendemos o ser humano só perguntando-nos de onde vem (do pó da terra), o compreendemos melhor quando perguntamos onde ele pode chegar. Só nessa altura a imagem do ser humano torna-se clara. E somente quando, olhando outra pessoa, essa possibilidade de elevar-se é percebida, nasce então um respeito incondicional para o ser humano. Um respeito que o considera um ser sagrado mesmo quando se encontra em situações de profunda humilhação.
Dom João Carlos Petrini
Bispo de Camaçari / BA
Presidente do Regional NE3 da CNBB
ASCENSÃO
A Ascensão do Senhor ao céu foi a última aparição do Ressuscitado. Mas esta despedida é totalmente diferente daquela da Sexta Feira Santa. Naquele momento Jesus parecia ter fracassado. A despedida da Ascensão tem algo de triunfal. Agora Ele não é entregue à morte, antes, entra na vida mais intensa e profunda (no céu). Não é o derrotado, Ele é o vitorioso pelo poder divino que o ressuscita.
Jesus, subindo ao céu, leva consigo a nossa humanidade carnal. Ele é o Filho de Deus que abraçou a nossa humanidade e a tomou para si, para compartilhar conosco todas as circunstâncias da existência humana até a morte de cruz e leva esta nossa humanidade, conduzindo-a consigo, em sua vitória até o céu.
A Ascensão é a vitória definitiva da redenção que alcança o coração humano, por isso, torna-se motivo de alegria.
O céu na Sagrada Escritura indica a profundidade da terra, o nível mais profundo da realidade. A nossa humanidade é levada ao céu por Jesus vitorioso, quer dizer que alcança a sua verdade, o significado mais profundo de tudo, alcança a beleza, constrói o bem.
Jesus sobe ao céu e fica à direita do Pai. O Pai é o Criador, Ele está na origem de todas as coisas que criou e continua criando. O Pai está na raiz de todas as coisas, é a raiz que a tudo faz existir. Jesus Cristo Ressuscitado que sobe ao céu fica é direita do Pai, fica na raiz de todas as coisas, lá onde elas são criadas. Quando nós temos um olhar que não para na aparência, mas penetra até a raiz das coisas e das pessoas, podemos perceber as coisas e as pessoas como que saindo das mãos do Criador e nelas podemos reconhecer a presença de Jesus Cristo. Olhando para o amigo, pra a pessoa amada, para a esposa ou para o filho, para uma circunstância da vida, o homem e a mulher de fé podem dizer: Tu Senhor estás aqui. Na aparência desta pessoa, desta circunstância, eu reconheço os sinais de tua presença divina.
Não sabemos como de fato aconteceram as coisas nos detalhes. Lucas relata que Jesus, durante os 40 dias depois da Ressurreição, mostrou-se aos discípulos, falou com eles, explicando as coisas do Reino de Deus. O texto, no original grego, afirma que o Senhor: “tinha comido sal com eles”. O sal era um dom precioso com o qual se acolhiam os hospedes. Dever-se-ia traduzir: “Ele os acolheu em sua hospitalidade“, ou “Ele acolheu sua humanidade inteira”. Mas o sal é também sinal de paixão, dá sabor aos alimentos e serve para conservar, age contra a corrupção, contra a morte.
Lucas afirma que Jesus abriu os braços e os abençoou. Enquanto os abençoava, desapareceu de sua vista. Sua última imagem são os braços abertos no gesto da benção. As mãos de Cristo tornaram-se o teto que nos cobre e a força que abre a porta do mundo rumo ao alto. Abençoando-nos, Ele vai e abençoando-nos Ele fica, pois Ele disse que fica conosco todos os dias, até o fim dos tempos.
Os discípulos retomaram seu caminho não como quem é abandonado, mas como quem recebeu a benção. Sabiam que permaneceriam para sempre sob Suas mãos que abençoam “Não vos deixo órfãos diz Jesus, eu venho a vós” (Jo 14,18). E ainda “Eu pedirei ao Pai e Ele vos dará outro consolador, para que permaneça convosco para sempre” (Jo 14,16). Assim os apóstolos conquistaram a certeza : “Eis que Eu estarei convosco todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28,20).
Pilatos, na Sexta Feira Santa, apresentando Jesus à multidão que gritava, tinha dito: “Eis o homem” mostrando Jesus como símbolo do homem humilhado, derrotado, marcado pelo horror de todas as dores. Este é o homem, nos dizem os violentos, os prepotentes de todos os tempos, inclusive do nosso tempo. Mas a Ascensão de Cristo indica a vitória sobre o velho Adão, que parece destinado ao fracasso e à morte. O Ressuscitado é o Senhor do Universo, mas seu senhorio não humilha a terra, restitui-lhe o esplendor, a possibilidade de manifestar sua beleza e de mostrar a potência de Deus. Cristo que sobe ao céu levanta a imagem decaída de Adão, é a reabilitação do homem. O que humilha e abaixa o ser humano não é receber golpes da vida, é golpear, ferir, humilhar o outro. Desonrado não é quem é ofendido, mas quem ofende. O que levanta o ser humano não é a soberba (o orgulho), mas a humildade, não é a autoglorificação que torna grande, mas a comunhão com Deus da qual é capaz e a comunhão que acolhe e valoriza as outras pessoas.
A ascensão é um acontecimento rumo o alto do qual todos somos chamados a participar, nos diz que o ser humano pode viver olhando para o alto. Aliás, a altura que corresponde à medida humana é altura do mesmo Deus, na profundidade das coisas, não na superficialidade, no significado verdadeiro não na banalidade que tudo desvalida e debocha.
O ser humano é imagem e semelhança de Deus. A imagem do homem é elevada, mas nós temos a liberdade de puxa-la para baixo e configurá-la ou então podemos nos deixar elevar, levantar para o alto.
Não compreendemos o ser humano só perguntando-nos de onde vem (do pó da terra), o compreendemos melhor quando perguntamos onde ele pode chegar. Só nessa altura a imagem do ser humano torna-se clara. E somente quando, olhando outra pessoa, essa possibilidade de elevar-se é percebida, nasce então um respeito incondicional para o ser humano. Um respeito que o considera um ser sagrado mesmo quando se encontra em situações de profunda humilhação.
Dom João Carlos Petrini Bispo de Camaçari / BA Presidente do Regional NE3 da CNBB


