ARTIGO : Desafios e possibilidades para a família no tempo presente

“Toda a realidade da vida quotidiana tem como seu ponto focal a família. E quando a família está assentada no sacramento do matrimônio e na rocha que é Cristo, cada dia é portador de uma extraordinária beleza, do milagre do amor que se renova e se aprofunda”. Confira na integra o artigo de Dom Petrini que foi publicado no site da CNBB Ne3 :

Desafios e possibilidades para a família no tempo presente

Estamos vivendo uma etapa da Igreja profundamente marcada pela figura do Papa Francisco. Ele identificou a família como uma realidade que merece uma atenção especial, de fato, ele convocou dedicados à família, o extraordinário de 2014 e o ordinário de 2015, do qual tive a graça de participar.

Uma nota dominante nos ensinamentos do Papa Francisco é o convite a “curar as feridas e aquecer os corações dos fieis”. Afirma o Papa: “As pessoas devem ser acompanhadas, as feridas devem ser curadas. (…) Os ministros do Evangelho devem ser  capazes de aquecer o coração das pessoas, de caminhar na noite com elas, de saber dialogar e mesmo de descer às suas noites, na sua escuridão, sem perder-se” (…). E noutra passagem disse: “Vejo a Igreja como um hospital de campanha depois de uma batalha (…), pois muitos vivem feridas abertas.”

O Papa quer dirigir este olhar de compaixão a todas as realidades onde as feridas estão abertas. É o olhar que move seus passos de Pastor. É o olhar que ele pede a todos os batizados: que cada um seja missionário, portador de uma compaixão semelhante à de Jesus Cristo. E, na Amoris Laetitia e em muitas outras falas, o Papa dirige este olhar de misericórdia e compaixão às famílias do nosso tempo.

A família no contexto político

Desde os anos 50, a esfera pública, era dominada por uma mentalidade que enxergava somente indivíduos: o trabalhador, o desempregado, a criança, a mulher, o negro, o adolescente, o idoso, como se eles existissem fora de uma concreta rede de relações familiares. As relações familiares eram consideradas irrelevantes aos fins da organização social e à defesa dos direitos da cidadania. Em muitos casos, a família era considerada não somente irrelevante, mas perniciosa, como o adversário político que deveria ser derrotado para que modos de agir mais afinados com o processo de modernização pudessem encontrar terreno favorável à sua expansão.

Atualmente, não mais se discute a possibilidade de usar a pílula ou de divorciar-se, como acontecia nos anos 60 e 70. Discute-se: o que significa ser homem, ser mulher e por que não decidir o próprio gênero de modo autônomo e livre de condicionamentos biológicos e sociais? Não será melhor desfazer todos os vínculos que nos amarram, impedindo que sejamos livres para novas formas de realização que poderão aparecer no horizonte? É mesmo verdade que que a maternidade e a paternidade são essenciais à realização humana de uma pessoa adulta? Ou, antes, não será isto uma imposição da cultura originada no passado e da qual hoje nós podemos nos libertar?

A propaganda de uma mentalidade contrária à família é muito forte, tendo à sua disposição um impressionante aparato de mídia e de ideologia. No entanto, isto não impede que muitas pessoas façam uma experiência positiva de família como um bem precioso. Por isso, no Brasil, 98% dos entrevistadosnuma sondagem de opinião declararam que a família é o valor mais importante na própria vida.

E basta pouca observação para perceber que da família depende em grande parte a felicidade ou a infelicidade das pessoas. Na família, de fato, as crianças aprendem nos primeiros anos da vida se vale a pena viver, se vale a pena amar e constituir família, se é possível esperar que o futuro seja bom, se o trabalho é tarefa nobre e digna ou uma roubada para os fracos, se a honestidade é um valor a ser cultivado. Pela maneira como os pais se relacionam entre si e pela forma como se referem ao trabalho, aos amigos, ás situações que exigem algum sacrifício e a todas as circunstâncias da vida quotidiana as novas gerações vão absorvendo posturas humanas fundamentais.

Retornar ao desígnio de Deus sobre a família

Por isso, a família vivida segundo o desígnio de Deus é um bem precioso para os casais e para seus filhos, porque ali a fé se torna capaz dar significado ao amor, ao trabalho, aos sacrifícios abraçados para o bem de outros, aos momentos de festa, à dureza da doença e da morte. Em suma, toda a realidade da vida quotidiana tem como seu ponto focal a família. E quando a família está assentada no sacramento do matrimônio e na rocha que é Cristo, cada dia é portador de uma extraordinária beleza, do milagre do amor que se renova e se aprofunda.

A família, fundada no vínculo indissolúvel do matrimônio, constituída por um homem e uma mulher e por eventuais filhos, é o modo melhor de viver o amor humano, a maternidade, a paternidade, porque corresponde ao desígnio de Deus, é o caminho da maior realização humana e, ao mesmo tempo, constitui o bem mais decisivo para que a sociedade cresça na paz. Por isso, o Bem-aventurado João Paulo II, na Familiaris Consortio afirmava: “O futuro da humanidade passa através da família”.

É decisivo, então, um novo começo, (como sugere Bento XVI na Spe Salvi,) que parta do desígnio de Deus sobre a pessoa, o matrimônio e a família e que apresente às novas gerações as razões, a conveniênciado matrimônio e da família, a beleza de gerar e educar novas vidas, o fascínio pelo amor humano que, iluminado por Cristo, se renova e se aprofunda com o passar do tempo. Um novo começo é necessário porque significados, às vezes considerados claros para todos e dados por óbvios, na realidade são desconhecidos pela cultura contemporânea ou gravemente deformados.

Diante disso, o Beato João Paulo II apontou a necessidade de retornar ao desígnio de Deus sobre a pessoa, o matrimônio e a família. Ele fala de uma antropologia adequada, isto é, de um modo de compreender o ser humano que não reduz o ser humano a objeto e é capaz de proporcionar realização e satisfação reais, não ilusórias. E o Papa Francisco convocou dois Sínodos sobre a Família e escreveu, em seguida a Exortação Apostólica Amoris Laetitia. A cada um cabe dedicar tempo para compreender o que está realmente em jogo e como cada um pode contribuir para o bem da família. Nos encontramos neste espaço periodicamente para continuar nossa reflexão.

 Dom João Carlos Petrini 

Bispo de Camaçari/BA

Presidente do Regional NE3 da CNBB

                                                                   Diretor da Seção Brasileira do Pontifício Instituto Teológico João Paulo II para as Ciências do Matrimônio e da Família